Obesidade: Somos todos Xavantes

O Quarup

Já é bem conhecido o caso da tribo dos índios Pima, nos Estados Unidos. Esta tribo vivia no deserto de Sonoran, no Arizona, um dos lugares mais secos, mais áridos, e de maior escassez alimentar do território norte americano. Depois de aculturados, no século XX, eles passaram por grande transformação dos hábitos alimentares, e se tornaram conhecidos mundialmente pela alta incidência de obesidade e diabetes tipo 2. Mais da metade da tribo é formada de obesos e diabéticos. Não há mais dúvida de que o que ocorreu foi resultado de uma drástica mudança dos hábitos alimentares. Mas, restou uma dúvida, o que aconteceu, nesta população fechada, poderia ser resultado de uma alteração genética específica desta população ou não ?A Photograph of Pima Land.

O deserto de Sonoran

Com o tempo, outros casos semelhantes foram sendo relatados pelo mundo, sendo o mais conhecido o ocorrido com os habitantes de uma ilha no Pacífico, Nauru, que repetiram a história dos índios Pima. Após viverem séculos isolados, entraram em contato com a civilização ocidental, adotaram seus hábitos alimentares e também passaram a ter mais de cinquenta da população porcento composta de obesos e diabéticos. Assim, em dois povos, sem nenhum contato, ocorreu fato semelhante, mostrando que o fator desencadeante  em comum havia sido.

Agora chegou a hora de sabermos um fato semelhante no Brasil. Para nós ele é emblemático, pois aconteceu com os Xavantes. A imagem que temos em nossa memória é de indivíduos fortes e saudáveis, com seus tacapes na mão, dançando o Quarup, enquanto exibiam seus corpos musculosos e bem torneados. Pois bem, esqueça: Um estudo do endocrinologista João Paulo Botelho Vieira Filho, professor adjunto da Escola Paulista de Medicina, aponta que, em duas das principais terras xavantes, Sangradouro e São Marcos, a prevalência de diabetes é de 28,2%. Na população em geral, é 7%. Pior, metade dos mais de 4.000 indígenas que vivem nessas duas terras estão obesos.

A epidemia de obesidade é resultado, mais uma vez de alteração radical no modo alimentar de um grupo. “Após a acuturação, os índios foram abandonando as roças. E abandonaram também o seu cardápio tradicional, que incluía gafanhotos assados, formigas e larvas, ricos em proteínas, batata doce e mandioca”, conta o endocrinologista. Aposentadorias e o Bolsa Família facilitaram o acesso à cidade mais próxima, a 50 km de Sangradouro, e sua variedade de comida . Em troca passaram a consumir produtos industrializados, como o pão de forma, biscoitos, bolos de caixinha, macarrão , entre outros. Mas o maior vilão, porém, é a “ödzeire”, ou “água doce”, na língua xavante. O refrigerante virou um vício. O problema dos indígenas é o mesmo dos brancos: a tentação:  “o refrigerante é uma novidade que veio do céu, é um artificial tão gostoso”, diz Paulo Rawe, 51, há dois anos com diabetes.

As crianças sofrem com o descontrole nutricional. Os bebês nascem com mais de cinco quilos, muitas vezes com deficiências físicas, como lábio leporino e sem orelhas. Abortos e diabetes em adolescentes também são comuns.Segundo Vieira Filho, a solução é voltar à alimentação tradicional e adquirir novos hábitos. Algumas roças, diz, já são replantadas. E cortar radicalmente o refrigerante. Nada diferente do que vem acontecendo por aqui. As nossas crianças têm acesso aos shoppings, hamburguerias, lanchonetes, agora acrescidas de uma novidade, importada diretamente dos EUA: o refil de refrigerantes. Compre um copo e encha quantas vezes quiser. E lá vamos nós repetir a saga dos Pima, dos nativos de Nauru, graças a “água doce” vamos todos virar Xavantes…

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