Opinião: GORDOFOBIA MÉDICA

 

O post a seguir foi escrito por Marina Nogueira e publicado no seu Blog Não Conto Calorias.A sua reprodução aqui foi gentilmente permitida.

Quando me formei, comecei minha vida no consultório de um médico que tinha uma idéia diferente da que eu tinha sobre obesidade. Me formei na faculdade de nutrição junto com centenas de outras nutricionistas que acreditavam (e várias ainda acreditam) que para emagrecer bastava ‘fechar a boca’ e que ‘todo gordo é assim por preguiça/falta de vontade/etc’.

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Eu também acreditava que todo gordo mentia no consultório – lembrando que aqui não uso a palavra ‘gordo’ como algo pejorativo, mas como uma característica/condição física. Aquele papo de ‘eu como pouco e mesmo assim não emagreço’ não tinha uma razão para mim.

Então, por sorte, fui trabalhar com o Dr. Mauro Kleber. Eu atendia os pacientes que ele me encaminhava, e algumas vezes conversávamos sobre os casos. Em momento algum ele me doutrinava a passar uma dieta restritiva, com contagem calórica ou um monte de linhaça dourada (tendência na época). Como eu passei a vida ilesa a esse modus operandi de alimentação, foi fácil. E prazeroso.

Hoje, olhando para trás, vejo que foi aí que comecei a entender a obesidade como uma condição era multifatorial que independe de ‘força de vontade’ para não existtir. A cada paciente que eu conseguia ver a melhorar na alimentação sem apelar para as dietas da moda, era uma vitória. Na época também, comecei a escrever no blog desse mesmo médico, o Batata Frita Pode.

Depois de um tempo me mudei para São Paulo e fui do céu ao inferno em poucos meses: trabalhei com um médico que fazia piadas de extremo mau gosto. Na época era esse o nome que eu dava, só depois fui me tocar que o termo certo para aqueles comentários era gordofobia.

Dentre as diversas piadinhas, algumas eram clássicas: dizer pra paciente só subir com uma perna na balança, pois se subisse com as duas pernas a balança quebraria; ou perguntar se o marido tinha ‘descendência turca’, pois ‘turcos gostam de mulher gorda’. Duro né? Na época eu não podia fazer muito a respeito disso, só pensar sobre o quão machistas e preconceituosas eram essas frases – e virar os olhos para os diversos modismos que ele tentava aplicar e eu solenemente fazia cara de paisagem e seguia na minha forma de pensar.

Vendo aquilo tudo acontecendo e sem ter muito o que fazer, comecei esse blog que vos fala, estudando sobre aqueles absurdos e concluindo aquilo que eu já desconfiava: obesidade (ou sobrepeso, ou excesso de peso) é algo muito delicado para se tratar com força, foco, fé e dietas da moda. E nunca, jamais, pode ser motivo de piada.

Com o tempo, escutei histórias bizarras dos meus pacientes. Experiências do pior tipo. Gente que foi ao dermatologista falar sobre coceiras em regiões íntimas e não foram examinados porque o médico já colocou a culpa do excesso de peso, queixas de pessoas que sofriam com ansiedade mas foram aconselhadas pelo psiquiatra a procurar uma nutricionista pois emagrecer resolveria, e milhares do caso clássico: quem vai ao endocrinologista/clínico fazer controle de exames tireoidianos/gerais e são convencidos de que um remédio para emagrecer iria bem, afinal, ‘quem não quer emagrecer né?’.

Além disso, já soube de uma pessoa com transtorno alimentar grave escutar a nutricionista falar que a paciente era sortuda, com a seguinte justificativa da a ela: ‘todo mundo quer ser magra como você’. Sem falar na quantidade enorme de médicos/nutricionistas que, antes mesmo de ouvir o paciente, já soltam o velho: ‘veio pra emagrecer, né?’.

Gordofobia médica

Um estudo publicado na Obesity Reviews em 2015 levantou evidências demonstrando as percepções negativas dos profissionais de saúde sobre pessoas gordas, e como esses sentimentos podem ter como consequência diagnósticos errados ou tardios, impactando negativamente os resultados destes indivíduos.

Esse mesmo estudo mostrou que aqueles pacientes que enfrentam (ou creem que irão enfrentar) gordofobia médica tendem a procurar menos os serviços de saúde e, quando procuram, tem menos adesão as orientações médicas.

A gordofobia é o preconceito ou intolerância contra pessoas gordas, e pode ser percebida de maneira escancarada ou sutil. Quem nunca ouviu (ou falou) a frase ‘ela tem um rosto tão bonito, pena que é gorda’? Essa frase carrega a ‘confirmação’ de que só pessoas magras são belas, tornando as pessoas gordas em seres, automaticamente, feios.

No consultório médico isso é comum. Pode começar com um comentário, passando pela ausência de instrumentos que podem ser utilizados por pessoas gordas (cadeiras, aparelhos de pressão e balanças) até a ofensas do tipo ‘você não tem conserto mesmo!’.

A justificativa de diversos profissionais é a mesma: uma questão de saúde. A afirmação amplamente divulgada de que obesidade é uma doença crônica e ‘mal do século’ serve, muitas vezes, como alicerce para a gordofobia. Mas o conceito de saúde é maior do que o número do IMC: é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças. Visto isso, colocar um indivíduo obeso sob julgamento gordofóbico, é aproximá-lo do mal estar psicológico e social, e não da sanidade.

É inegável que o excesso de peso pode aumentar o risco de diversas doenças . Porém, atenção: ‘poder aumentar’ não é uma certeza absoluta de que isso irá acontecer. Existem dezenas de milhares de pessoas com sobrepeso ou obesidade que estão a pleno vapor, se alimentando muito bem, longe do sedentarismo e vivendo uma vida perfeita. E existem centenas de milhares de pessoas que são/estão gordas não por ‘falta de vergonha na cara’, mas sim pelos mais diversos motivos: transtornos alimentares (como a bulimia e o transtorno da compulsão alimentar), problemas psiquiátricos (de todos os tipos), fisiológicos (metabólicos, genéticos e outros), etc, etc, etc.

Além disso, sabemos que há uma crescente população – cada vez mais nova – com transtornos alimentares. Esses indivíduos podem ter o corpo magro, serem julgados como saudáveis e, na verdade, padecerem de uma grave doença.

Sugiro que dêem uma olhada nesse diagrama, que mostra as possíveis razões para obesidade

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Falta de cuidado

Algo muito comum é se referir a pessoa gorda como ‘ela não se cuida’. Mas o que é ‘se cuidar?’. Tomar banho, pentear o cabelo, escovar os dentes, estudar, comprar roupas novas, manter o ambiente de trabalho e a casa limpos, fazer atividade física… tudo isso é cuidado. O gordo não é ‘desleixado’. Ele não ‘se largou’. Ele é uma pessoa como qualquer outra que, por algum motivo, tem um formato de corpo maior do que outra pessoa que faz as mesmíssimas coisas que ele.

O que o profissional de saúde pode fazer?

  • Escutar, muito. E sempre. Ao invés de supor ou transferir seus próprios desejos para o paciente, ele deve ouvir com calma as angústias de cada um.
  • Estudar sobre obesidade e comportamento humano também ajuda bastante. Você não precisa ser expert no assunto, mas começar a procurar informações que vão além do seu viés de olhar já é um excelente começo.
  • Entender que uma pessoa pode sim emagrecer, mas que isso é muito diferente de tornar-se magra.
  • Reavaliar o uso do IMC como medida oficial de peso corporal. O IMC já é discutido há muito tempo como uma ferramenta ineficaz na prática clínica.
  • Analisar (com ajuda terapêutica, preferencialmente) suas angústias, valores e olhares sobre o corpo humano. Talvez sua necessidade ou furor para ver o outro magro é, na verdade, um reflexo daquilo que você considera um sucesso.
  • Criar um espaço físico onde seu paciente se sinta confortável: cadeiras, balanças e aparelhos médicos compatíveis com maiores tamanhos de corpos.
  • Estudar (nem que seja brevemente) o impacto biológico e psicológico de dietas restritivas. Resumindo: entender sobre transtornos alimentares.

Mas eu realmente estou doente, e aí?

Se você tem excesso de peso e está adoecido, e o excesso de peso pode ter colaborado para essa condição, sugiro seguir o tratamento. Procure um médico/nutricionista que estão dispostos a te tratar com seriedade, e não te transformar num case de sucesso para postar sua foto de antes e depois nas redes sociais. Fuja de tratamentos promissores demais, metas que consideram grandes perdas de peso em curtos espaços de tempo. Em alguns casos, medicações são recomendadas. Pergunte, questione.

Você pode se beneficiar muito de ajuda profissional. E se você já sofreu algum tipo de preconceito e se sentiu prejudicado, recorra ao conselho do seu estado/cidade. Mas não desista nunca de procurar ajuda caso você julgue necessário!

Até a próxima!

Marina

Ser fit ou ser saudável? – Nossos Posts Mais Acessados

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Você que decidiu mudar de vida e cuidar da sua saúde e do seu corpo, já decidiu se está em busca de uma vida saudável ou de uma vida fit? Não se esqueça que estes dois estilos de vida não necessariamente andam de mãos dadas por ai. Acho que é melhor ser mais clara: sim, é possível ser fit e ser saudável, assim como é possível ser saudável e não ser fit, mas não necessariamente ser fit é também ser saudável. Por mais complicada que esta frase possa ter soado para você, é exatamente disto que vou falar neste texto.Resultado de imagem para fit body caricature

 

O mundo fitness criou uma incrível relação com um estilo de vida mais saudável e mais feliz, já que seus praticantes estão sempre por ai exibindo suas barrigas tanquinhos e suas dietas impecáveis por fotos nas mais diversas redes sociais que temos disponíveis. Quem é fit malha muito, toma suplemento, não come besteira e se orgulha muito de exibir os corpos definidos por ai, mas isto significa que estas pessoas são saudáveis? Veja bem, o conceito de saudável no dicionário Michaelis tem duas definições interessantes para esta palavra: a primeira diz “bom ou conveniente para a saúde”, enquanto a segunda diz “que dá alegria”. Isto para mim deixa bem claro o que eu, e algumas outras nutricionistas e médicos que seguem uma linha parecida com a minha, sempre dizemos em relação a uma alimentação saudável – ela deve ser capaz de te fornecer todos os nutrientes que você precisa, mas ela também precisa te fazer feliz. Não sei o quanto esta afirmação é clara para vocês, mas ela é muito óbvia para mim. A alimentação é um processo extremamente complexo que envolve muito mais do que a ingestão de nutrientes; ela também é relacionada com hábitos de vida e com o prazer.

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Com este conceito em mente, eu volto a falar do estilo de vida fit. Quantas destas pessoas que você vê exibindo suas formas e suas dietas restritivas nas redes sociais, são realmente felizes com o que comem e com o estilo de vida que levam? Eu posso contar nos dedos as que assumem estar completamente satisfeitas com o estilo de vida que optaram seguir (e mesmo assim acho que a grande maioria delas está mentindo para mim e para elas próprias). Já ouvi inclusive de grandes atletas de esportes como o fisiculturismo, que precisam do corpo para viver, que dietas restritivas são extremamente frustrantes e cansativas, e que quando eles podem acabam caindo na tentação de comer algo fora do programado. Vendo esta situação de perto, será que ser fit significa também ser saudável? Não quero nem entrar no mérito do consumo exagerado de suplementos alimentares, ou de práticas excessivas de algum tipo de atividade física, nem mesmo do uso ilegal de substâncias anabolizantes para alcançar a forma física perfeita. Estou aqui discutindo o único mérito que me cabe, que é a alimentação.

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Ser saudável, na minha concepção, é um processo que envolve muito mais do que formas físicas e comer pratos de alface, batata doce e frango todos os dias. Se hoje temos índices cada vez mais altos de anorexia, vigorexia e até mesmo de obesidade é porque não entendemos mais qual deve ser a nossa relação com a nossa comida. Ou adoramos demais, ou condenamos demais, tornando-a vilã de uma situação que é mais simples do que parece ser. Entendo a importância da dieta restritiva para algumas práticas de esporte, e admiro o trabalho que muitos nutricionistas fazem nesta área, mas temos que concordar que um atleta de ponta está longe de ser um indivíduo saudável. Ele vive praticando exercícios em condições extremas, levando seu trabalho cardíaco e sua produção de radicais livres a níveis altíssimos. Um indivíduo saudável sabe equilibrar a prática de atividades físicas com suas necessidades nutricionais e, principalmente, com sua produção de prazer. Qualquer exagero é, na minha concepção, descartado para quem busca um estilo de vida saudável.

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Precisamos entender que se alimentar de maneira saudável envolve saber comer salada, batata doce e frango, mas também apreciar todos os outros tipos de alimentos, como os doces, as frituras e a bebida alcoólica, mesmo que seja de maneira bastante moderada. Exercitar-se de maneira saudável é saber fazer as atividades físicas no seu ritmo, de maneira que seu organismo consiga usufruir da queima de calorias e não se prejudicar com os excessos. Ter um corpo saudável é saber manter o percentual de gordura dentro dos níveis recomendados (18 a 28% para mulheres, 15 a 20% para homens) e a circunferência abdominal e do quadril nos padrões adqueados, e ter os exames de sangue com resultados safistafórios, e não se preocupar tanto com aquela gordurinha localizada nas costas ou na barriga que não fazem diferença nenhuma para a sua saúde. Viver de maneira saudável é saber fazer tudo que faz bem para a sua saúde, e se preocupar mais em ser feliz do que qualquer outra coisa.

E você? Quer ser saudável ou quer ser fit?

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Batata Opina: É perigoso comer lichia ?

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Na sua edição de abril, a respeitada revista The Lancet Global Health
traz um artigo de pesquisadores indianos ligando o consumo de lichia com o desenvolvimento de encefalopatia aguda tóxica em crianças na India. O artigo é comentado pelo editor da Lancet Peter S. Spencer e em resumo nos informa o seguinte:

A lichia contem aminoácidos incomuns, que perturbam a gliconeogênese e beta oxidação de ácidos graxos. Isto é também verdade para o consumo de outras frutas  “aparentadas” à lichia. O caso mais conhecido é de uma fruta chamada akee, muito consumida na Jamaica e que é a causa de uma encefalopatia hipoglicêmica em crianças,  conhecida como Doença do Vômito da Jamaica. Isto se deve à alta concentração de hipoglicina-A e seu homólogo alfa-metilenociclopropil glicina, ambos com capacidade de induzir hipoglicemia em crianças e em pessoas sensíveis ao seu consumo.

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Akee

Realmente são relatados casos de desenvolvimento de encefalopatia em crianças na India, China e Bangladesh. A relação do consumo da lichia com o desenvolvimento de encefalite foi estudado também para excluir a presença de pesticidas ou mesmo de doença viral. O fato é que a encefalopatia é realmente de origem tóxica, o que pode ser evidenciada pelo rápido desenvolvimento do quadro clínico – menos de 20 horas entre o consumo e o óbito. Mas então porque a epidemia ? É que a produção de lichia nestes países aumentou exponencialmente nos últimos anos, visando a exportação para o Ocidente, o que facilitou e aumentou o seu consumo pela população local.

O desenvolvimento da encefalopatia parece depender do estado de maturidade cerebral, do estado nutricional, sendo as crianças desnutridas mais  propensas, da dose consumida e da sensibilidade individual. A boa notícia é que, ao contrário de outras encefalopatias tóxicas ela é reversível, pois sua toxicidade se dá por hipoglicemia, que pode ser revertida pelo consumo de açúcar.

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Mas então é perigoso comer lichia? Respondendo: aqui no Ocidente, onde a fruta é cara e consumida, habitualmente por crianças de classe mais abastada e bem nutridos, é pouco provável que o seu consumo venha a se tornar motivo de preocupação. Em todo caso fica o alerta e talvez uma única precaução: parece ser razoável evitar comer grande quantidade de lichia ou akee quando em jejum e ela deve ser evitada em crianças desnutridas e de tenra idade.

Um último detalhe: a hipoglicina-A e seu homólogo alfa-metilenociclopropil glicina estão sendo estudados e talvez tenham alguma aplicação para o tratamento do diabetes e da síndrome metabólica.

REFERÊNCIAS:

  1. The enigma of litchi toxicity: an emerging health concern in southern Asia, acessado em http://lancet-alerts.elsevier.com/cgi-bin23/DM/x/nBGKe0LZHoy0SD60Bb5nn0EG, dia 13/03/17
  2. Association of acute toxic encephalopathy with litchi consumption in an outbreak in Muzaffarpur, India, 2014: a case-control study acessado em http://lancet-alerts.elsevier.com/cgi-bin23/DM/x/nBGKe0LZHoy0SD60Bb5n50EJ, dia 13/03/17

 

Batata Opina: Deficiência de vitamina D, ferro, cálcio e outros micronutrientes em adolescentes e gestantes

Em artigo publicado on line no Nutrition Bulletin no dia 07 de fevereiro de 2016, os autores R. Miller, Spiro e Stanner, chamam a atenção para o fato de que não apenas a obesidade tem se tornado um problema de saúde pública importante no reino Unido, mas também a ingestão inadequada de micronutrientes, por parte da população, ter trazido sérias preocupações às autoridades saúde pública locais.

 

Numa pesquisa recente, o estado de alguns biomarcadores nutricionais foi avaliado, entre eles o ácido fólico, a vitamina D, o cálcio, ferro e o iodo. Os grupos mais vulneráveis a uma ingestão inadequada destes micronutrientes incluem adolescentes, minorias étnicas e grupos de classes socioeconômicas menos favorecidas. Meninas adolescentes e mulheres em idade fértil formam grupo alvo de uma preocupação ainda mais intensa, porque habitualmente elas têm um requerimento maior de alguns micronutrientes específicos, e cuja carência pode ter sérios impactos em sua prole.

 

Os autores chamam a atenção que há, por parte dos consumidores, grande preocupação com a composição alimentar, no que diz respeito aos macronutrientes, mas relativamente pouca importância parece ser dada para a composição, à quantidade, e à densidade de micronutrientes presentes nos alimentos ingeridos. Assim, segundo os autores, é provável, por exemplo, que nos próximos anos, de um modo geral, o padrão de ingestão de micronutrientes se mantenha relativamente inalterado, mas alguns modismos como a diminuição na ingestão do leite (por causa da hoje onipresente intolerância à lactose) e do desestímulo ao consumo de outros produtos de origem animal podem levar, por exemplo, às deficiências na ingestão de ferro e cálcio, essenciais ao desenvolvimento fetal.

 

Além disto, vivendo hoje num ambiente de sedentarismo, que favorece o desenvolvimento da obesidade, as pessoas podem ser encorajadas a reduzir drasticamente a sua ingestão de energia, aumentando o risco de carência de alguns destes micronutrientes. Então como proceder? Uma provável solução poderia ser a de aumentar a densidade destes micronutrientes nas dietas, no intuito de prevenir a sua carência. Assim, por exemplo, a produção de alimentos enriquecidos em ferro, ácido fólico e vitamina D poderiam ser estimuladas, pelas autoridades públicas, no intuito de prevenir a sua carência em gestantes e adolescentes.

 

Mas será esta realmente a solução? Será que continuará a haver a promoção deste contínuo nutricionismo, com os médicos, nutricionistas e cientistas tendo de nos dizer continuamente o que podemos comer ou não comer, ou não seria hora de tentarmos voltar a praticar alguns hábitos mais naturais? Por que existem carência de nutrientes tão comuns?

 

Se nossos adolescentes, grávidas, ou mesmo obesos, não fossem continuamente bombardeados com informações nutricionais de procedência duvidosa e interesses escusos, será que eles não se alimentariam melhor? Será que perdemos totalmente o nosso instinto alimentar? Será que nos tornamos incapazes de executar uma função tão básica à sobrevivência quanto nos alimentarmos sem ajuda? Todo o conhecimento estará ajudando ou atrapalhando? A minha avó provavelmente não sabia que o trigo tinha glúten, ou que existiam entidades tão perigosas como gorduras saturadas, gorduras trans, ou tão milagrosas quanto os ácidos ômega 3, e no entanto ela foi capaz de se alimentar adequadamente e ter seus filhos saudáveis e sem nenhuma carência nutricional evidente. Milagre ou instinto? Informação ou cultura?

 

Resumindo, a estratégia de fortificação dos alimentos pode ser boa, como estratégia de saúde pública no curto prazo, mas provavelmente se mostrará sempre inadequada e incompleta quando comparada com a velha e boa alimentação praticada pelas nossas avós.

Por que devemos parar de comer Quinoa?

“No Reino Unido existe uma campanha para incentivar a população local a evitar o consumo de quinoa por causa de seus efeitos na população da América do Sul”.

Foi assim que minha conversa, com uma inglesa de 25 anos, sobre a quinoa me despertou a ideia de escrever esse texto. Antes que comecem a queixar-se do título, vou me justificar: não precisamos parar totalmente de comer quinoa, mas é interessante reduzir essa onda de consumo – e vou explicar porque. O título era somente uma estratégia para ganhar sua atenção.

Estive visitando, nas últimas semanas, o Chile e parte da Bolívia, com objetivo meramente turístico. Apesar disso, foi com esse segundo país que aprendi a rever meus conceitos sobre várias coisas na vida – inclusive sobre o consumo de quinoa. Não, não sou jornalista e não fiz nenhuma pesquisa investigativa sobre o assunto – sou somente uma nutricionista curiosa e que viu com os próprios olhos, e ouviu com os próprios ouvidos, como anda a relação da Bolívia com a produção de um de seus alimentos mais importantes: a quinoa.

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Para quem não sabe ou não buscou procurar, a quinoa é um dos alimentos básicos da alimentação de países como a Bolívia, Peru e algumas partes do Chile e, apesar de ser conhecida por milhares de anos por essas populações, só em meados de 2010 é que ela conquistou a atenção de especialistas em alimentação de todo o mundo (se tornando, inclusive, foco de várias campanhas com o apoio contraditório de organizações renomadas como a FAO). A quinoa é uma leguminosa de alto valor nutricional, rica em carboidratos, proteínas e fibras alimentares – características que a tornam um produto único e extremamente saudável. Mas, se ela é tudo isso, não seria besteira tirá-la do nosso cardápio? É sobre isso que eu gostaria de conversar com vocês.

Viajando pelo Parque Nacional Eduardo Avaroa, na Bolívia (onde fica localizado o Salar de Uyuni e outras maravilhas naturais do país), tive a oportunidade de passar algumas horas conversando com nosso motorista – um simpático jovem boliviano chamado Elvis, torcedor do Cruzeiro (acreditem, é verdade!) e um apaixonado por sua nação e suas  tradições. Dentre as várias histórias que Elvis me contou sobre seu país, seu presidente e as recentes conquistas da população local, foi a conversa sobre a quinoa que mais me chamou a atenção. Perguntei a Elvis sobre a importância da quinoa na alimentação local e ele me respondeu com a seguinte afirmativa: “hoje os bolivianos estão deixando de lado o consumo da quinoa para poder vendê-la aos grandes mercados alimentícios. O interesse por esse produto é muito grande”. Questionei novamente sobre como isso afetava a alimentação local e ele disse que os bolivianos preferem se virar com batatas, milhos e outros alimentos locais (e muito menos nutritivos do que a quinoa) do que comprometer suas vendas (por preços relativamente baixos) de quinoa. Trocando em miúdos, Elvis afirmou que tem se tornado cada vez mais raro o consumo de quinoa por populações indígenas ou rurais bolivianas.

Mas aí você me pergunta: se eles estão ganhando dinheiro com isso, qual seria o problema em continuar comprando a quinoa da população boliviana? Essa é uma discussão que envolve várias outras variáveis importantes, que vão desde a manutenção e o respeito por práticas culturas alimentares, a qualidade nutricional da alimentação dessa população, até com o cuidado e a sustentabilidade dos nossos hábitos.

Quinoa Harvest

Vamos falar do primeiro aspecto e, talvez, o que mais me interessa: a manutenção das práticas culturais. Sempre defendi aqui no blog a manutenção de hábitos alimentares que tem correlação com os nossos hábitos milenares, fugindo de modismos e segundo aquelas práticas que sempre foram características da população brasileira: o tradicional arroz com feijão, as frutas regionais e os nossos produtos culturais, fabricados do nosso jeito. É essa prática, inclusive, que o Ministério da Saúde Brasileiro tem tentado reforçar e ensinar para a população local após lançar o último Guia Alimentar para a População Brasileira. Comer é muito mais do que apenas se nutrir – é também uma representação social dos nossos hábitos e da maneira como nos relacionamos e usufruímos do ambiente em que vivemos.

Para os bolivianos também é assim. A quinoa está para eles como o arroz (e o feijão) está para os brasileiros. É a base da sua alimentação, a maneira como encontraram para fugir da desnutrição e se adaptar a ambientes inóspitos como os desertos e os terrenos em grande altitude (que podem ser amplamente inférteis). Quando eles optam, portanto, por vender um produto que é base de sua alimentação para outras populações (como a nossa, por exemplo), eles estão abrindo mão de algo que é extremamente importante para o povo local (ao meu ver até mais importante do que o dinheiro que ganham ao vender a quinoa). Abrir mão da quinoa força os bolivianos a procurar por outros alimentos não-tradicionais, tornando sua alimentação pouco sustentável, com baixos valores de proteína (visto que a quinoa é uma fonte rica em proteína vegetal) e muito, muito mais cara do que deveria ser.

Por isso afirmo que, talvez, seja interessante repensar nossa relação com a quinoa. Não digo que você nunca mais vai poder comer esse alimento tão saboroso e interessante, mas que talvez precise repensar seus hábitos. Nós brasileiros nunca precisamos da quinoa para ser um povo saudável.  Vivemos sem ela até os anos 2000! O mesmo acontece com a população americana e europeia, que nunca precisaram da quinoa para viver bem ou de maneira saudável. A minha opinião é que precisamos voltar a tratar a quinoa como o alimento exótico que ela sempre foi para nós: uma iguaria da América Central para ser apreciada em alguns momentos específicos e não como um produto essencial para o nosso bem estar.

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Não acredito que diminuir o consumo mundial da quinoa vai prejudicar a economia de países exportadores, apesar dessa ser uma afirmativa baseada em nenhuma informação relevante sobre esse assunto (e também baseada no que ouvi de Elvis sobre a Bolívia comprar de volta sua própria quinoa processada nos EUA, ao invés de valorizar o comércio local). Acredito que essa é somente uma maneira simples de tentarmos incentivar a manutenção e a recuperação dos hábitos milenares dessa população, de ajudá-los a manter uma alimentação equilibrada e nutritiva e também de valorizar os nossos próprios produtos locais. Por isso, quando a jovem inglesa me disse que o Reino Unido está reduzindo o consumo local de quinoa para preservar a América do Sul, essa atitude também chamou minha atenção. Penso que seja possível fazer o mesmo por aqui e valorizar ainda mais nossos produtos locais. , em respeito aos hábitos alimentares das populações sulamericanas, mas também em respeito ao meu próprio país e minhas raízes culturais (e alimentares, por que não?).

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Revisão: Bebidas Adoçadas Um Risco Permanente Para Seu Filho

Continuamos a nossa campanha contra a obesidade infantil. A revisão abaixo é de um artigo publicado ontem:

Quarenta e três milhões de crianças entre 0 e 5 anos estão obesas ou acima do peso ao redor do mundo. Estima-se que a prevalência da obesidade em crianças deverá aumentar de 4,2% em 1990 para 9,1% em 2020. A obesidade infantil tem sérias consequências para o bem estar e a saúde, tanto durante a infância e adolescência, como na vida adulta. O quadro piora entre os mais velhos, 22,2% das crianças entre 4-5 anos são obesas ao entrarem na escola, e este índice sobe para 33,3% quando elas atingem 10-11anos, segundo um estudo publicado na Inglaterra.

Vários estudos têm mostrado correlação entre o consumo de bebidas adoçadas e obesidade em crianças jovens, e que a redução em seu consumo é uma boa estratégia para reduzir a incidência de obesidade nestas crianças. Há também correlação de consumo de bebidas adoçadas com uma pior qualidade da dieta e da saúde dental, além de maior risco do desenvolvimento de diabetes tipo 2 e síndrome metabólica.

Há evidências de que  hábitos pouco saudáveis se desenvolvem durante a primeira infância e que este seria um momento propício para a intervenção. Temos que lembrar, que além dos refrigerantes, são considerados bebidas adoçadas: leite ou achocolatados adocicados, sucos de fruta industrializados, chás e cafés adoçados, bebidas energéticas e esportivas com adição de açúcar (frutose,sacarose ou açúcar comum).

 

Autores ingleses acabaram de publicar na Obesity Reviews desta semana uma extensa revisão de 46.876 trabalhos publicados sobre o tema. A revisão mostrou que o consumo destas bebidas por crianças é afetado por fatores individuais, interpessoais e ambientais. As principais conclusões:

  • A moderação, por intervenção dos pais, mostrou estar associada a um padrão de consumo menor destas bebidas pelas crianças.
  • Em contrapartida, baixo nível socioeconômico, idade e a presença de pais ou mães solteiros foram associados a um aumento do consumo.
  • O maior consumo também se relacionou com tempo assistindo TV, consumo de snacks ( (petiscos) e preferência pessoal por bebidas adoçadas.
  • O incentivo ao consumo de água ou leite não pôde ser associado a uma diminuição da ingestão de bebidas açucaradas.
  • Também não houve associação com políticas educacionais implantadas pela escola em crianças de 0-6 anos.
  • A disponibilidade de bebidas açucaradas em casa se correlacionou positivamente com o aumento de consumo pelas crianças.

Ou seja, o papel dos pais e do exemplo paterno, aliado à introdução de bons hábitos alimentares no ambiente doméstico, parece ser o fator mais importante para a prevenção da obesidade infantil.

Então vamos lá: abra sua geladeira e sua despensa e jogue fora os refrigerantes, achocolatados, sucos adoçados ou outras bebidas adoçadas. Dê o exemplo, não consuma estas bebidas na frente das crianças. É difícil, eu sei, mas fundamental, já que a obesidade já ameaça quase 15% das nossas crianças. Faça sua parte : dê a seu filho uma chance !

Leia mais:

Determinants of sugar-sweetened beverage consumption in young children: a systematic review. V. Mazarello Paes, K. Hesketh, C. O’Malley, H. Moore, C. Summerbell, S. Griffin, E. M. F. van Sluijs, K. K. Ong and R. LakshmanArticle first published online: 7 AUG 2015