Batata e Ciência: Como enganar o seu cérebro para desejar uma alimentação saudável

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Mudar hábitos alimentares é uma tarefa difícil para nós que trabalhamos com nutrição. As dietas da moda têm resultados de curta duração  e quem as  a segue, muitas vezes acaba frustrado pelas restrições ou dificuldades práticas. Quando se trata de modificar os hábitos alimentares de uma família, o desafio costuma ser ainda maior, pois temos que ter soluções que atendam as necessidades nutricionais de todos os seus membros.Agora, um novo ramo de estudos, a Gastrofísica, nos ajuda a reforçar alguns conceitos simples. Este é o tema de um artigo publicado  recentemente pelo jornal inglês The Guardian. 

A Gastrofísica é um tipo de ciência, por assim dizer, dedicada a pesquisar os sabores dos alimentos e como eles se combinam para criar uma melhor percepção  do gosto. É uma disciplina que reúne, ao mesmo tempo, profissionais de várias disciplinas como psicólogos,neurocientistas,especialistas em marketing e economia.

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Esta  equipe de especialistas não estuda apenas o gosto dos alimentos, mas sim o seu sabor, porque, tecnicamente, o gosto só acontece na língua, enquanto o sabor é parte de um efeito mais global para a pessoa. O que estes cientistas querem estudar é como os alimentos interagem para determinar o modo como percebemos os sabores. A partir daí podemos usar pequenos truques  para “enganar” o nosso cérebro e induzir-nos a uma maior saciedade. Vamos a alguns truques:

  1. Enganando o seu cérebro

Há algumas mudanças simples que você pode fazer e que podem ter um efeito profundo sobre a sua saciedade. As pesquisas mostram que o uso de  louças menores tende a levar o nosso cérebro a acreditar que estamos comendo mais, um fenômeno psicológico que pode ser melhor ilustrado dando uma olhada na ilusão de óptica Delboeuf.

A ilusão de Delboeuf é uma ilusão ótica da percepção do tamanho relativo.Na sua versão mais conhecida , dois círculos de tamanho idêntico  são colocados lado a lado e um é circundado por círculo externo. O círculo circundado parecerá maior que o não circundado se o círculo externo estiver próximo e menor se o anel externo estiver mais afastado.

One large plate and one small plate, both holding the same amount of food

Se você colocar duas porções idênticas de comida em um prato grande e em um prato pequeno, a porção no prato maior vai parecer menor, e vice-versa: o nosso cérebro não pode deixar de ser enganado por este efeito, mesmo quando sabemos que elas são iguais.

Também sabemos que servir a comida em uma pote,  em lugar de um prato, pode dar a sensação de há um maior volume, mais uma vez enganando  nosso cérebro e levando-o a pensar que há mais lá do que é realmente é o caso.

Uma pesquisa mais recente mostra ainda  que o peso de talheres e pratos tem também um efeito significativo sobre o apreço para com as refeições que comemos;  pratos, facas e garfos mais pesados oferecem maiores níveis de saciedade.

Qual a conclusão ? Sirva suas refeições em pequenas tigelas pesadas  e use  talheres também pesados para comer !

2. Torne difícil o ato de comer

 

Isto pode parecer um pouco ridículo, mas as pesquisas mostram que, se somos forçados a comer com uma mão não dominante vamos geralmente consumir menos. Mas isso não quer dizer que, necessariamente você vai ter que tornar a sua experiência de comer menos agradável. Tente usar outras maneiras criativas para  interagir com o seu alimento, como o uso de colheres de sopa japonesas para tomar a sopa, ou pauzinhos para outros tipos de alimentos – qualquer coisa, de fato, que o impeça de simplesmente por a comida rapidamente em sua boca. Alimentação consciente é a chave aqui.

3. Nada de comer em frente à TV

Nós acabamos de mencionar atenção e parece que este é um dos principais contribuintes para o quão bem e quanto nós comemos. As pesquisas mostram que consumimos cerca de 30% a mais quando estamos envolvidos em outras atividades, como assistir televisão.

Tais distrações estão se tornando muito mais comuns na mesa de jantar. Na verdade, muitas pessoas nem sequer usam o espaço reservado para o  jantar em casa, preferindo comer em frente à TV,  ou enquanto usa smartphones . No entanto, checar  mensagens e atualizar a sua rede social são maneiras infalíveis de garantir que você não está focado no alimento que você está comendo; você vai aprecia-lo menos, o que inevitavelmente resulta em redução de saciedade e ao cometimento de excessos.

Assim, o conselho aqui é para desligar a TV, coloque o telefone a carregar no outro quarto e sente-se em uma mesa de jantar para desfrutar plenamente a sua refeição.

4. Use todos os seus sentidos para comer:

Uma alimentação multissensorial nos faz comer, reforçando simultaneamente a outros sentidos, como olfato ou visão. Mas  por multissensorial se entende  mais do que isso. A ideia é ajudar as pessoas a ser verdadeiramente conscientes dos pratos a que eles são apresentados.Em casa, isso pode ser tão simples como,  antes de comer cheirar sua comida e realmente apreciar os aromas. (Muitos pesquisadores acreditam que até 90% do que percebemos como o sabor vem do nosso sentido de cheiro.)

Segurar  uma taça quente em sua mão também ajuda, assim como mastigar adequadamente (sua mãe estava certa …) e exalar enquanto você mastiga – o que estimula os receptores olfativos e aumenta ainda mais o sabor dos alimentos.

Finalmente, o foco na textura. É interessante notar que nós consumimos menos calorias quando comemos maçãs do que quando comemos purê de maçã, e menos calorias com purê de maçã do que o suco de maçã, porque nós temos mais informações sensitivas do purê do que do suco, e mais ainda da maçã real. Em outras palavras, nossos cérebros usam a quantidade de sensação que recebemos a partir da  textura como uma das pistas para nos dizer quando parar de comer.

Viu, é bem fácil enganar o nosso cérebro, não é mesmo?

Este post foi largamente inspirado na tradução do artigo:How to trick your brain into healthy eating disponível em The Guardian

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Efeitos Adversos de Suplementos Alimentares

Quase todo mundo acha que usar suplementos alimentares é seguro e saudável, mas a verdade é que as coisas não são bem assim. A respeitada revista médica New England Journal of Medicine, publicou na sua edição de ontem um artigo com o título Emergency Department Visits for Adverse Events Related to Dietary Supplements (Consultas nos Serviços de Emergência Decorrentes de Eventos Relacionados a Suplementos Dietéticos).

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O artigo chama a atenção para o fato de que suplementos, como produtos nutricionais suplementares herbais e micronutrientes (vitaminas e minerais), são largamente utilizados pela população americana e de resto em todo o planeta, embora haja poucos ou nenhum dado sobre seus efeitos adversos.

Os autores do artigo realizaram um estudo em que foram avaliados dados oriundos de 63 unidades de emergência, espalhadas pelos Estados Unidos, entre 2004 e 2013. Foram avaliados 3667 relatos e  estimados que 23005 consultas/ano são feitas aos serviços de emergência, relacionadas ao uso de suplementos dietéticos, e que resultam em 2154 internações anuais (95% de intervalo de confiança).

Os pacientes mais frequentemente acometidos foram adultos jovens entre 20 e 34 anos (28% das consultas), seguidos, pasmem vocês de crianças após uso acidental (21%) . Após a exclusão destes casos acidentais, 65,9% das consultas se deveu ao uso de produtos nutricionais suplementares herbais e 31,8% ao uso de micronutrientes. Como já era de se esperar, os produtos herbais, usados para perda de peso, lideraram as ocorrências, sendo responsáveis por 71,8% dos sintomas apresentados às consultas.

E quais são os sintomas que levaram os pacientes a consultar ? Palpitações, dor torácica e taquicardia foram os mais comuns. Entre a população mais idosa (maiores de 65 anos) houve a presença de choque e disfagia (dificuldade de deglutição) causada por problemas na ingestão destas pílulas (usualmente pílulas de multivitamínicos e minerais são muito grandes para serem deglutidos por esta parcela da população,que costuma ter um alto índice de dificuldades de deglutição, decorrentes do envelhecimento)

 Em conclusão: estima-se que nos EUA 23000 consultas por ano se devem a algum efeito adverso, relatacionado ao uso de suplementos alimentares. Estas consultas, mais frequentementemente, envolvem manifestações cardiovasculares secundárias ao uso de produtos destinados à perda de peso ou para aumento do gasto energético em pacientes mais jovens e problemas de deglutição, mais associados ao uso de micronutrientes (vitaminas e minerais), em pacientes mais idosos.
Quando você for usar um destes suplementos, pense duas vezes, antes de acreditar piamente no que diz o vendedor. O fato de ser um produto “natural”, não o torna necessariamente seguro e você pode sim estar correndo algum risco em utilizá-los.

Meu cachorro está gordo e dai ? : Obesidade em animais uma pista para entender a obesidade humana

Todo mundo entende porque uma criança se torna obesa: fast-food, refrigerantes, muito tempo assistindo TV, pouca atividade física…Mas será só isto ? David Allison, um pesquisador da Universidade do Alabama acha que não, e muita gente concorda com ele. Para Allison a explicação tradicional dos Dois Grandes motivos para a obesidade (excesso de ingestão e inatividade física)  não se aplica a todos os casos. Como entender, por exemplo o aumento dos casos de obesidade em crianças com 6 meses ou menos de idade ? Elas não vão a lanchonetes, usualmente estão sendo amamentadas e sua atividade física não mudou nas últimas décadas. Deve haver mais algum motivo.

Pensando nisto, Allison e sua equipe estudaram animais que vivem próximo ao homem: animais de estimação (gatos, cães) , animais de laboratório (camundongos, macacos) e também animais selvagens que vivem em ambientes próximos aos humanos: ratos, marmotas. Foram estudados mais de 20.000 animais de 24 populações diferentes, de oito espécies. Os resultados foram surpreendentes:

Em vinte e três de vinte e quatro populações, o grau de obesidade vem aumentando, como nos humanos. O aumento do peso e da obesidade nos animais aconteceu tanto em animais com a alimentação controlada, e não modificada ao longo dos últimos anos, como camundongos ou macacos, habitualmente alimentados ad libitum e sem alteração na atividade física nos últimos anos. (Eles também não têm acesso a máquinas de venda de refrigerantes ou a fast-food, por exemplo), quanto em animais vivendo em ambientes domésticos (cães e gatos) ou selvagem (ratos e marmotas).

Vejam alguns exemplos: Macacos em colônias de pesquisa: 10% de aumento, chimpanzés em laboratórios 34% de aumento em uma década, gatos domésticos 38% de aumento em obesidade, cães  domésticos 3%, ratos 21% mais obesos, camundongos de laboratório 12% por década, e mesmo em cavalos em regime de pastagem foi relatado uma incidência de 19% de obesidade.

E quais seriam os outros fatores que fazem com que humanos e animais que vivem ao seu redor ganhem peso ? Algumas respostas são óbvias: os animais domésticos estão mais sedentários e comem mais, assim como os seus donos. Mas e os ratos selvagens ? Os camundongos de laboratório ? As marmotas ? Deve haver outros fatores associados ao aumento da obesidade. Algo a ver com a proximidade aos humanos talvez.

Os ratos podem estar tendo acesso a mais alimentos, a composição e a diminuição da presença de bactérias em rações animais pode ser uma causa, alguns alimentos sofreram alterações de cultivo, a microbiota intestinal tanto de humanos quanto de animais tem sofrido alterações significativas, o aumento do estresse, associado a menos horas de sono tem sido implicada.

Alguns estudos têm mostrado que a composição da flora microbiana intestinal afeta a maneira que as calorias são extraídas dos alimentos. A diminuição das horas de sono (um americano dorme hoje, em média 7 horas, contra 9 horas há duas décadas) estimula a liberação de grelina, um hormônio que reduz os níveis de saciedade, modulados pela leptina, infecções por adenovirus-36, comuns em animais e humanos, e que aumentam com a convivência entre eles, causa obesidade em animais e o nível aumentado de anticorpos contra este vírus já foi relatado em humanos obesos.

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Ou seja as causas prováveis são muitas e talvez não se limitem apenas à dieta e ao exercício físico. Assim, da próxima vez que notar que seu cão ou seu gato está obeso, preste a atenção, este pode ser um indicador de que alguma alteração ambiental em comum pode estar afetando a vocês dois. Mas uma coisa é clara,precisamos de mais estudos antes de tirarmos conclusões precipitadas.

PARA LER MAIS:

Klimentidis YC, Beasley TM, Allison DB  e colaboradores. Canaries in the coal mine: a cross-species analysis of the plurality of obesity epidemics. Proc R Soc B,2011:1626-34.

Revisão: Bebidas Adoçadas Um Risco Permanente Para Seu Filho

Continuamos a nossa campanha contra a obesidade infantil. A revisão abaixo é de um artigo publicado ontem:

Quarenta e três milhões de crianças entre 0 e 5 anos estão obesas ou acima do peso ao redor do mundo. Estima-se que a prevalência da obesidade em crianças deverá aumentar de 4,2% em 1990 para 9,1% em 2020. A obesidade infantil tem sérias consequências para o bem estar e a saúde, tanto durante a infância e adolescência, como na vida adulta. O quadro piora entre os mais velhos, 22,2% das crianças entre 4-5 anos são obesas ao entrarem na escola, e este índice sobe para 33,3% quando elas atingem 10-11anos, segundo um estudo publicado na Inglaterra.

Vários estudos têm mostrado correlação entre o consumo de bebidas adoçadas e obesidade em crianças jovens, e que a redução em seu consumo é uma boa estratégia para reduzir a incidência de obesidade nestas crianças. Há também correlação de consumo de bebidas adoçadas com uma pior qualidade da dieta e da saúde dental, além de maior risco do desenvolvimento de diabetes tipo 2 e síndrome metabólica.

Há evidências de que  hábitos pouco saudáveis se desenvolvem durante a primeira infância e que este seria um momento propício para a intervenção. Temos que lembrar, que além dos refrigerantes, são considerados bebidas adoçadas: leite ou achocolatados adocicados, sucos de fruta industrializados, chás e cafés adoçados, bebidas energéticas e esportivas com adição de açúcar (frutose,sacarose ou açúcar comum).

 

Autores ingleses acabaram de publicar na Obesity Reviews desta semana uma extensa revisão de 46.876 trabalhos publicados sobre o tema. A revisão mostrou que o consumo destas bebidas por crianças é afetado por fatores individuais, interpessoais e ambientais. As principais conclusões:

  • A moderação, por intervenção dos pais, mostrou estar associada a um padrão de consumo menor destas bebidas pelas crianças.
  • Em contrapartida, baixo nível socioeconômico, idade e a presença de pais ou mães solteiros foram associados a um aumento do consumo.
  • O maior consumo também se relacionou com tempo assistindo TV, consumo de snacks ( (petiscos) e preferência pessoal por bebidas adoçadas.
  • O incentivo ao consumo de água ou leite não pôde ser associado a uma diminuição da ingestão de bebidas açucaradas.
  • Também não houve associação com políticas educacionais implantadas pela escola em crianças de 0-6 anos.
  • A disponibilidade de bebidas açucaradas em casa se correlacionou positivamente com o aumento de consumo pelas crianças.

Ou seja, o papel dos pais e do exemplo paterno, aliado à introdução de bons hábitos alimentares no ambiente doméstico, parece ser o fator mais importante para a prevenção da obesidade infantil.

Então vamos lá: abra sua geladeira e sua despensa e jogue fora os refrigerantes, achocolatados, sucos adoçados ou outras bebidas adoçadas. Dê o exemplo, não consuma estas bebidas na frente das crianças. É difícil, eu sei, mas fundamental, já que a obesidade já ameaça quase 15% das nossas crianças. Faça sua parte : dê a seu filho uma chance !

Leia mais:

Determinants of sugar-sweetened beverage consumption in young children: a systematic review. V. Mazarello Paes, K. Hesketh, C. O’Malley, H. Moore, C. Summerbell, S. Griffin, E. M. F. van Sluijs, K. K. Ong and R. LakshmanArticle first published online: 7 AUG 2015

Obesidade: Somos todos Xavantes

O Quarup

Já é bem conhecido o caso da tribo dos índios Pima, nos Estados Unidos. Esta tribo vivia no deserto de Sonoran, no Arizona, um dos lugares mais secos, mais áridos, e de maior escassez alimentar do território norte americano. Depois de aculturados, no século XX, eles passaram por grande transformação dos hábitos alimentares, e se tornaram conhecidos mundialmente pela alta incidência de obesidade e diabetes tipo 2. Mais da metade da tribo é formada de obesos e diabéticos. Não há mais dúvida de que o que ocorreu foi resultado de uma drástica mudança dos hábitos alimentares. Mas, restou uma dúvida, o que aconteceu, nesta população fechada, poderia ser resultado de uma alteração genética específica desta população ou não ?A Photograph of Pima Land.

O deserto de Sonoran

Com o tempo, outros casos semelhantes foram sendo relatados pelo mundo, sendo o mais conhecido o ocorrido com os habitantes de uma ilha no Pacífico, Nauru, que repetiram a história dos índios Pima. Após viverem séculos isolados, entraram em contato com a civilização ocidental, adotaram seus hábitos alimentares e também passaram a ter mais de cinquenta da população porcento composta de obesos e diabéticos. Assim, em dois povos, sem nenhum contato, ocorreu fato semelhante, mostrando que o fator desencadeante  em comum havia sido.

Agora chegou a hora de sabermos um fato semelhante no Brasil. Para nós ele é emblemático, pois aconteceu com os Xavantes. A imagem que temos em nossa memória é de indivíduos fortes e saudáveis, com seus tacapes na mão, dançando o Quarup, enquanto exibiam seus corpos musculosos e bem torneados. Pois bem, esqueça: Um estudo do endocrinologista João Paulo Botelho Vieira Filho, professor adjunto da Escola Paulista de Medicina, aponta que, em duas das principais terras xavantes, Sangradouro e São Marcos, a prevalência de diabetes é de 28,2%. Na população em geral, é 7%. Pior, metade dos mais de 4.000 indígenas que vivem nessas duas terras estão obesos.

A epidemia de obesidade é resultado, mais uma vez de alteração radical no modo alimentar de um grupo. “Após a acuturação, os índios foram abandonando as roças. E abandonaram também o seu cardápio tradicional, que incluía gafanhotos assados, formigas e larvas, ricos em proteínas, batata doce e mandioca”, conta o endocrinologista. Aposentadorias e o Bolsa Família facilitaram o acesso à cidade mais próxima, a 50 km de Sangradouro, e sua variedade de comida . Em troca passaram a consumir produtos industrializados, como o pão de forma, biscoitos, bolos de caixinha, macarrão , entre outros. Mas o maior vilão, porém, é a “ödzeire”, ou “água doce”, na língua xavante. O refrigerante virou um vício. O problema dos indígenas é o mesmo dos brancos: a tentação:  “o refrigerante é uma novidade que veio do céu, é um artificial tão gostoso”, diz Paulo Rawe, 51, há dois anos com diabetes.

As crianças sofrem com o descontrole nutricional. Os bebês nascem com mais de cinco quilos, muitas vezes com deficiências físicas, como lábio leporino e sem orelhas. Abortos e diabetes em adolescentes também são comuns.Segundo Vieira Filho, a solução é voltar à alimentação tradicional e adquirir novos hábitos. Algumas roças, diz, já são replantadas. E cortar radicalmente o refrigerante. Nada diferente do que vem acontecendo por aqui. As nossas crianças têm acesso aos shoppings, hamburguerias, lanchonetes, agora acrescidas de uma novidade, importada diretamente dos EUA: o refil de refrigerantes. Compre um copo e encha quantas vezes quiser. E lá vamos nós repetir a saga dos Pima, dos nativos de Nauru, graças a “água doce” vamos todos virar Xavantes…

Dieta pobre em carboidratos e rica em proteínas pode ?

Dois trabalhos, realizados em 2012 (1,2) analisaram o efeito das dietas com baixo teor em carboidratos  (≤45% das necessidades energéticas derivadas de carboidratos) versus dietas com baixo teor de gordura (≤30% derivada de gorduras), nos fatores de risco cardiovasculares.Os dois trabalhos mostraram que ambas as dietas foram eficientes em causar diminuição de peso e melhorar os fatores de risco cardiovascular.

Quando comparados, com os  participantes que ingeriram dietas pobres em gordura,  os que receberam dietas de baixo teor de carboidratos tiveram uma redução, estatisticamente significante  no colesterol total, no LDL colesterol , aliados a um aumento no HDL colesterol e uma maior redução nos triglicérides. A redução no peso corporal,  circunferência abdominal e outros fatores de risco não foram significativamente diferentes nos dois grupos.

Um trabalho recente de  2014 confirmou os efeitos de uma dieta com baixo teor de carboidratos em um trabalho randomizado (3). Os autores concluíram que uma dieta com baixo teor de carboidratos  é mais eficiente que uma dieta com restrição em gordura para promover perda de peso, riscos cardiovasculares.  Restringir carboidratos poderia assim ser uma opção para pessoas que precisam perder peso e reduzir seus fatores de risco cardiovascular.Estes achados sugeriram que uma dieta com restrição de carboidratos são no mínimo tão eficientes quanto as dietas de baixo teor em gordura para reduzir o peso corporal e melhorar os fatores de risco metabólicos e incentivaram um amplo uso destas dietas nos últimos anos.

Desde então, estas dietas têm sido amplamente prescritas ou utilizadas de maneira não orientada. Mas o que ambos trabalhos foram unânimes em indagar é : quais seriam os efeitos de uma dieta destas a longo prazo ? Esta também é a preocupação do Batata Frita Pode.

Outros trabalhos começam a mostrar os riscos a longo e médio prazo do consumo de dietas ricas em proteína. Embora as dietas com baixo teor de carboidratos possam melhorar marcadores metabólicos, haverá um custo ?  Não há dúvida de que esta melhora é eficiente para a prevenção e tratamento de pacientes com diabetes tipo 2 e síndrome metabólica, mas qual é, por exemplo, o seu efeito na função das paredes arteriais ? Qual o efeito do consumo de altas quantidades de gordura e proteínas, por exemplo, na função renal ?

Achados recentes têm mostrado que um padrão alimentar caracterizado por baixa ingestão de carboidratos, mas altas quantidades de proteínas e gordura estão associados  com pior reatividade vascular das arteríolas em pacientes em risco de doenças cardiovasculares.(4). Também tem sido mostrado que dietas com alto teor de proteínas , e reduzida quantidade de carboidratos e fibras resultaram numa diminuição dos metabólitos fecais protetores contra o câncer de cólon e num aumento dos metabólitos perigosos. Assim,  uma longa aderência estas dietas pode aumentar o risco de câncer e doenças colônicas. (5)

Na nossa opinião, dietas que privilegiem a ingestão de um grupo macro alimentar, em detrimento de outro, não têm sustentação fisiológica e são certamente antinaturais, quando indicadas para uso a longo prazo, ou de forma permanente. Contudo, por curtos períodos, em pacientes selecionados, sob supervisão médica e nutricional, elas talvez possam ser uma estratégia temporária, útil, para obtenção de uma redução imediata dos riscos metabólicos e cardiovasculares.

BIBLIOGRAFIA SELECIONADA:

(1) F. L. Santos,  S. S. Esteves,  A. da Costa Pereira, W. S. Yancy Jr and J. P. L. Nunes. Systematic review and meta-analysis of clinical trials of the effects of low carbohydrate diets on cardiovascular risk factors. Obesity Reviews, 2012: 1048–1066.

(2) Tian Hu,Katherine T. Mills,Lu Yao,Kathryn Demanelis,Mohamed Eloustaz,William S. Yancy Jr,Tanika N. Kelly,Jiang He and Lydia A. Bazzano.Effects of Low-Carbohydrate Diets Versus Low-Fat Diets on Metabolic Risk Factors: A Meta-Analysis of Randomized Controlled Clinical Trials. Am. J. Epidemiol. (2012) 176 (suppl 7): S44-S54. doi: 10.1093

(3) Lydia A. Bazzano,; Tian Hu, Kristi Reynolds, Lu Yao, Calynn Bunol, Yanxi Liu, Chung-Shiuan Chen, Michael J. Klag, Paul K. Whelton, and Jiang He.Effects of Low-Carbohydrate and Low-Fat Diets: A Randomized Trial

(4) Jordi Merino, Richard Kones, Raimon Ferré,Núria Plana, Josefa Girona, Gemma Aragonés, Daiana Ibarretxe, Mercedes Herase Luis Masana.Negative effect of a low-carbohydrate, high-protein, high-fat diet on small peripheral artery reactivity in patients with increased cardiovascular risk. British Journal of Nutrition :Issue 07 / 2013, 1241-1247

(5) Wendy R Russell, Silvia W Gratz, Sylvia H Duncan, Grietje Holtrop, Jennifer Ince, Lorraine Scobbie, Garry Duncan, Alexandra M Johnstone, Gerald E Lobley, R John Wallace, Garry G Duthie, e  Harry J Flint.High-protein, reduced-carbohydrate weight-loss diets promote metabolite profiles likely to be detrimental to colonic health. Am J Clin Nutr May 2011:1062-1072.