Meu cachorro está gordo e dai ? : Obesidade em animais uma pista para entender a obesidade humana

Todo mundo entende porque uma criança se torna obesa: fast-food, refrigerantes, muito tempo assistindo TV, pouca atividade física…Mas será só isto ? David Allison, um pesquisador da Universidade do Alabama acha que não, e muita gente concorda com ele. Para Allison a explicação tradicional dos Dois Grandes motivos para a obesidade (excesso de ingestão e inatividade física)  não se aplica a todos os casos. Como entender, por exemplo o aumento dos casos de obesidade em crianças com 6 meses ou menos de idade ? Elas não vão a lanchonetes, usualmente estão sendo amamentadas e sua atividade física não mudou nas últimas décadas. Deve haver mais algum motivo.

Pensando nisto, Allison e sua equipe estudaram animais que vivem próximo ao homem: animais de estimação (gatos, cães) , animais de laboratório (camundongos, macacos) e também animais selvagens que vivem em ambientes próximos aos humanos: ratos, marmotas. Foram estudados mais de 20.000 animais de 24 populações diferentes, de oito espécies. Os resultados foram surpreendentes:

Em vinte e três de vinte e quatro populações, o grau de obesidade vem aumentando, como nos humanos. O aumento do peso e da obesidade nos animais aconteceu tanto em animais com a alimentação controlada, e não modificada ao longo dos últimos anos, como camundongos ou macacos, habitualmente alimentados ad libitum e sem alteração na atividade física nos últimos anos. (Eles também não têm acesso a máquinas de venda de refrigerantes ou a fast-food, por exemplo), quanto em animais vivendo em ambientes domésticos (cães e gatos) ou selvagem (ratos e marmotas).

Vejam alguns exemplos: Macacos em colônias de pesquisa: 10% de aumento, chimpanzés em laboratórios 34% de aumento em uma década, gatos domésticos 38% de aumento em obesidade, cães  domésticos 3%, ratos 21% mais obesos, camundongos de laboratório 12% por década, e mesmo em cavalos em regime de pastagem foi relatado uma incidência de 19% de obesidade.

E quais seriam os outros fatores que fazem com que humanos e animais que vivem ao seu redor ganhem peso ? Algumas respostas são óbvias: os animais domésticos estão mais sedentários e comem mais, assim como os seus donos. Mas e os ratos selvagens ? Os camundongos de laboratório ? As marmotas ? Deve haver outros fatores associados ao aumento da obesidade. Algo a ver com a proximidade aos humanos talvez.

Os ratos podem estar tendo acesso a mais alimentos, a composição e a diminuição da presença de bactérias em rações animais pode ser uma causa, alguns alimentos sofreram alterações de cultivo, a microbiota intestinal tanto de humanos quanto de animais tem sofrido alterações significativas, o aumento do estresse, associado a menos horas de sono tem sido implicada.

Alguns estudos têm mostrado que a composição da flora microbiana intestinal afeta a maneira que as calorias são extraídas dos alimentos. A diminuição das horas de sono (um americano dorme hoje, em média 7 horas, contra 9 horas há duas décadas) estimula a liberação de grelina, um hormônio que reduz os níveis de saciedade, modulados pela leptina, infecções por adenovirus-36, comuns em animais e humanos, e que aumentam com a convivência entre eles, causa obesidade em animais e o nível aumentado de anticorpos contra este vírus já foi relatado em humanos obesos.

Resultado de imagem para ratos de laboratorio obeso

Ou seja as causas prováveis são muitas e talvez não se limitem apenas à dieta e ao exercício físico. Assim, da próxima vez que notar que seu cão ou seu gato está obeso, preste a atenção, este pode ser um indicador de que alguma alteração ambiental em comum pode estar afetando a vocês dois. Mas uma coisa é clara,precisamos de mais estudos antes de tirarmos conclusões precipitadas.

PARA LER MAIS:

Klimentidis YC, Beasley TM, Allison DB  e colaboradores. Canaries in the coal mine: a cross-species analysis of the plurality of obesity epidemics. Proc R Soc B,2011:1626-34.

Revisão: Bebidas Adoçadas Um Risco Permanente Para Seu Filho

Continuamos a nossa campanha contra a obesidade infantil. A revisão abaixo é de um artigo publicado ontem:

Quarenta e três milhões de crianças entre 0 e 5 anos estão obesas ou acima do peso ao redor do mundo. Estima-se que a prevalência da obesidade em crianças deverá aumentar de 4,2% em 1990 para 9,1% em 2020. A obesidade infantil tem sérias consequências para o bem estar e a saúde, tanto durante a infância e adolescência, como na vida adulta. O quadro piora entre os mais velhos, 22,2% das crianças entre 4-5 anos são obesas ao entrarem na escola, e este índice sobe para 33,3% quando elas atingem 10-11anos, segundo um estudo publicado na Inglaterra.

Vários estudos têm mostrado correlação entre o consumo de bebidas adoçadas e obesidade em crianças jovens, e que a redução em seu consumo é uma boa estratégia para reduzir a incidência de obesidade nestas crianças. Há também correlação de consumo de bebidas adoçadas com uma pior qualidade da dieta e da saúde dental, além de maior risco do desenvolvimento de diabetes tipo 2 e síndrome metabólica.

Há evidências de que  hábitos pouco saudáveis se desenvolvem durante a primeira infância e que este seria um momento propício para a intervenção. Temos que lembrar, que além dos refrigerantes, são considerados bebidas adoçadas: leite ou achocolatados adocicados, sucos de fruta industrializados, chás e cafés adoçados, bebidas energéticas e esportivas com adição de açúcar (frutose,sacarose ou açúcar comum).

 

Autores ingleses acabaram de publicar na Obesity Reviews desta semana uma extensa revisão de 46.876 trabalhos publicados sobre o tema. A revisão mostrou que o consumo destas bebidas por crianças é afetado por fatores individuais, interpessoais e ambientais. As principais conclusões:

  • A moderação, por intervenção dos pais, mostrou estar associada a um padrão de consumo menor destas bebidas pelas crianças.
  • Em contrapartida, baixo nível socioeconômico, idade e a presença de pais ou mães solteiros foram associados a um aumento do consumo.
  • O maior consumo também se relacionou com tempo assistindo TV, consumo de snacks ( (petiscos) e preferência pessoal por bebidas adoçadas.
  • O incentivo ao consumo de água ou leite não pôde ser associado a uma diminuição da ingestão de bebidas açucaradas.
  • Também não houve associação com políticas educacionais implantadas pela escola em crianças de 0-6 anos.
  • A disponibilidade de bebidas açucaradas em casa se correlacionou positivamente com o aumento de consumo pelas crianças.

Ou seja, o papel dos pais e do exemplo paterno, aliado à introdução de bons hábitos alimentares no ambiente doméstico, parece ser o fator mais importante para a prevenção da obesidade infantil.

Então vamos lá: abra sua geladeira e sua despensa e jogue fora os refrigerantes, achocolatados, sucos adoçados ou outras bebidas adoçadas. Dê o exemplo, não consuma estas bebidas na frente das crianças. É difícil, eu sei, mas fundamental, já que a obesidade já ameaça quase 15% das nossas crianças. Faça sua parte : dê a seu filho uma chance !

Leia mais:

Determinants of sugar-sweetened beverage consumption in young children: a systematic review. V. Mazarello Paes, K. Hesketh, C. O’Malley, H. Moore, C. Summerbell, S. Griffin, E. M. F. van Sluijs, K. K. Ong and R. LakshmanArticle first published online: 7 AUG 2015

Obesidade: Somos todos Xavantes

O Quarup

Já é bem conhecido o caso da tribo dos índios Pima, nos Estados Unidos. Esta tribo vivia no deserto de Sonoran, no Arizona, um dos lugares mais secos, mais áridos, e de maior escassez alimentar do território norte americano. Depois de aculturados, no século XX, eles passaram por grande transformação dos hábitos alimentares, e se tornaram conhecidos mundialmente pela alta incidência de obesidade e diabetes tipo 2. Mais da metade da tribo é formada de obesos e diabéticos. Não há mais dúvida de que o que ocorreu foi resultado de uma drástica mudança dos hábitos alimentares. Mas, restou uma dúvida, o que aconteceu, nesta população fechada, poderia ser resultado de uma alteração genética específica desta população ou não ?A Photograph of Pima Land.

O deserto de Sonoran

Com o tempo, outros casos semelhantes foram sendo relatados pelo mundo, sendo o mais conhecido o ocorrido com os habitantes de uma ilha no Pacífico, Nauru, que repetiram a história dos índios Pima. Após viverem séculos isolados, entraram em contato com a civilização ocidental, adotaram seus hábitos alimentares e também passaram a ter mais de cinquenta da população porcento composta de obesos e diabéticos. Assim, em dois povos, sem nenhum contato, ocorreu fato semelhante, mostrando que o fator desencadeante  em comum havia sido.

Agora chegou a hora de sabermos um fato semelhante no Brasil. Para nós ele é emblemático, pois aconteceu com os Xavantes. A imagem que temos em nossa memória é de indivíduos fortes e saudáveis, com seus tacapes na mão, dançando o Quarup, enquanto exibiam seus corpos musculosos e bem torneados. Pois bem, esqueça: Um estudo do endocrinologista João Paulo Botelho Vieira Filho, professor adjunto da Escola Paulista de Medicina, aponta que, em duas das principais terras xavantes, Sangradouro e São Marcos, a prevalência de diabetes é de 28,2%. Na população em geral, é 7%. Pior, metade dos mais de 4.000 indígenas que vivem nessas duas terras estão obesos.

A epidemia de obesidade é resultado, mais uma vez de alteração radical no modo alimentar de um grupo. “Após a acuturação, os índios foram abandonando as roças. E abandonaram também o seu cardápio tradicional, que incluía gafanhotos assados, formigas e larvas, ricos em proteínas, batata doce e mandioca”, conta o endocrinologista. Aposentadorias e o Bolsa Família facilitaram o acesso à cidade mais próxima, a 50 km de Sangradouro, e sua variedade de comida . Em troca passaram a consumir produtos industrializados, como o pão de forma, biscoitos, bolos de caixinha, macarrão , entre outros. Mas o maior vilão, porém, é a “ödzeire”, ou “água doce”, na língua xavante. O refrigerante virou um vício. O problema dos indígenas é o mesmo dos brancos: a tentação:  “o refrigerante é uma novidade que veio do céu, é um artificial tão gostoso”, diz Paulo Rawe, 51, há dois anos com diabetes.

As crianças sofrem com o descontrole nutricional. Os bebês nascem com mais de cinco quilos, muitas vezes com deficiências físicas, como lábio leporino e sem orelhas. Abortos e diabetes em adolescentes também são comuns.Segundo Vieira Filho, a solução é voltar à alimentação tradicional e adquirir novos hábitos. Algumas roças, diz, já são replantadas. E cortar radicalmente o refrigerante. Nada diferente do que vem acontecendo por aqui. As nossas crianças têm acesso aos shoppings, hamburguerias, lanchonetes, agora acrescidas de uma novidade, importada diretamente dos EUA: o refil de refrigerantes. Compre um copo e encha quantas vezes quiser. E lá vamos nós repetir a saga dos Pima, dos nativos de Nauru, graças a “água doce” vamos todos virar Xavantes…