Batata Opina: É perigoso comer lichia ?

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Na sua edição de abril, a respeitada revista The Lancet Global Health
traz um artigo de pesquisadores indianos ligando o consumo de lichia com o desenvolvimento de encefalopatia aguda tóxica em crianças na India. O artigo é comentado pelo editor da Lancet Peter S. Spencer e em resumo nos informa o seguinte:

A lichia contem aminoácidos incomuns, que perturbam a gliconeogênese e beta oxidação de ácidos graxos. Isto é também verdade para o consumo de outras frutas  “aparentadas” à lichia. O caso mais conhecido é de uma fruta chamada akee, muito consumida na Jamaica e que é a causa de uma encefalopatia hipoglicêmica em crianças,  conhecida como Doença do Vômito da Jamaica. Isto se deve à alta concentração de hipoglicina-A e seu homólogo alfa-metilenociclopropil glicina, ambos com capacidade de induzir hipoglicemia em crianças e em pessoas sensíveis ao seu consumo.

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Akee

Realmente são relatados casos de desenvolvimento de encefalopatia em crianças na India, China e Bangladesh. A relação do consumo da lichia com o desenvolvimento de encefalite foi estudado também para excluir a presença de pesticidas ou mesmo de doença viral. O fato é que a encefalopatia é realmente de origem tóxica, o que pode ser evidenciada pelo rápido desenvolvimento do quadro clínico – menos de 20 horas entre o consumo e o óbito. Mas então porque a epidemia ? É que a produção de lichia nestes países aumentou exponencialmente nos últimos anos, visando a exportação para o Ocidente, o que facilitou e aumentou o seu consumo pela população local.

O desenvolvimento da encefalopatia parece depender do estado de maturidade cerebral, do estado nutricional, sendo as crianças desnutridas mais  propensas, da dose consumida e da sensibilidade individual. A boa notícia é que, ao contrário de outras encefalopatias tóxicas ela é reversível, pois sua toxicidade se dá por hipoglicemia, que pode ser revertida pelo consumo de açúcar.

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Mas então é perigoso comer lichia? Respondendo: aqui no Ocidente, onde a fruta é cara e consumida, habitualmente por crianças de classe mais abastada e bem nutridos, é pouco provável que o seu consumo venha a se tornar motivo de preocupação. Em todo caso fica o alerta e talvez uma única precaução: parece ser razoável evitar comer grande quantidade de lichia ou akee quando em jejum e ela deve ser evitada em crianças desnutridas e de tenra idade.

Um último detalhe: a hipoglicina-A e seu homólogo alfa-metilenociclopropil glicina estão sendo estudados e talvez tenham alguma aplicação para o tratamento do diabetes e da síndrome metabólica.

REFERÊNCIAS:

  1. The enigma of litchi toxicity: an emerging health concern in southern Asia, acessado em http://lancet-alerts.elsevier.com/cgi-bin23/DM/x/nBGKe0LZHoy0SD60Bb5nn0EG, dia 13/03/17
  2. Association of acute toxic encephalopathy with litchi consumption in an outbreak in Muzaffarpur, India, 2014: a case-control study acessado em http://lancet-alerts.elsevier.com/cgi-bin23/DM/x/nBGKe0LZHoy0SD60Bb5n50EJ, dia 13/03/17

 

A medicalização do dia-a-dia

Crônica originalmente escrita por Mauro Kleber no blog Raras Ideias

A partir de um excelente artigo de Jorge Quillfeldt *: A Medicalização da Vida, publicado na Scientific American brasileira , passo a discutir alguns fatos médicos que me têm deixado um pouco preocupado: o excesso de diagnósticos, na área médica, incluindo aí o campo da nutrição clínica, campo em que esta prática tem se mostrado extremamente exagerada e desastrosa.

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Como cita Quillfeldt em seu artigo, (1)  “Pessoas saudáveis são pacientes que ainda não sabem que estão doentes”. A afirmação foi feita por um personagem de uma peça teatral satírica (2) : Na peça, um médico ambicioso, o Dr. Knock, chega em uma pequena cidade do interior da França – St.Maurice, para suceder ao Dr. Parpalaid, um médico íntegro e honesto, mas que tinha poucos pacientes. O estado de saúde da cidade era excelente, e o Dr Knock, sem ter o que fazer resolve convencer a todos da cidade de que eles estão doentes. É então que ele usa a frase supracitada. O resultado é imediato. Toda a população é colocada em casa, acamada, o hotel é transformado em uma clínica e até mesmo o Dr. Parpalaid, que retorna temporariamente ao vilarejo, fica preocupado com a sua saúde e é internado peloDr.Knock.

Parece incrível, mas hoje, quase 100 anos após a peça ter sido escrita (3) , a profecia ou a prática do Dr. Knock, vem se tornado uma prática rotineira no meio médico mundial. Não há dúvida que houve grandes avanços na medicina nos últimos anos, mas com isto veio o exagero, e a medicalização de temas, que embora tenham a ver com a saúde, às vezes não são estritamente médicos. Quillfeld define medicalizar como “passar a definir e tratar algo como um problema médico ou direcionar conhecimentos e recursos técnicos (grifo meu) da medicina para tratar algo que antes não era abrangido por esta área”.

Segundo o autor, a facilidade tecnológica em detectar novas patologias (como o autismo) e reinterpretar outras (como a histeria), pode facilitar que novas doenças possam ser criadas, quando situações normais acabam tidas como doenças. Sou testemunha do quanto isto tem sido frequente no consultório, notadamente no que diz respeito a condições como intolerância à lactose ou ao glúten, por exemplo. Quando eu era criança não conheci nenhum de meus amigos, com os lábios lambuzados de leite, o pão empanturrado de manteiga e queijo, ou que comesse bolo quente roubado e que passasse mal depois. Quando muito sofríamos com uma palmada, ou éramos alertados com o aviso de que bolo quente pode fazer mal para a saúde. Ninguém era intolerante à lactose ou ao glúten. O que aconteceu? As técnicas diagnósticas estão melhores, mas porque não tínhamos diarreia ou intolerância? Mudamos nós, ou mudaram os alimentos, ou os médicos. Esperamos discutir estas e outras dúvidas nos próximos posts.

Mas fiquemos, por enquanto, só com a medicalização. Há exemplos diversos: desde a pílula anticoncepcional, que proporcionou uma revolução sexual, até os antissépticos bucais, que terminaram com o mau hálito, a remédios para calvície, para síndrome das pernas inquietas, para timidez , para falta de concentração, uma epidemia infantil, hoje tratável com a quase onipresente ritalina, para a tristeza, via antidepressivos e até para o envelhecimento, como os medicamentos para a disfunção erétil e para a deficiência de testosterona que combatem as temíveis diminuição da libido e a impotência, só para citar as menos bizarras. O importante é que há uma doença para cada um. Se você não está sentindo nada é porque ainda não fez o seu check up anual, ou semestral, com um Dr. Knock.

Mas qual o problema em ficar mais bonito, tentar ser jovem, fazer prevenção? Nenhum, não viessem estes procedimentos acompanhados de sofrimento psicológico com condições naturais ou fisiológicas, a perda da autonomia em tomar decisões básicas sobre sua vida e sua saúde (agora delegada ao médico) , ao fim da subjetividade, tanto por parte do médico, quanto do paciente, na análise de situações corriqueiras, ao aumento nos custos da saúde, que em última análise vai ser subsidiado por você mesmo, através do aumento das mensalidades de seu plano de saúde e dos impostos destinados a manter a boa saúde pública. Além disto há a iatrogenia – a consequência de um ato originado a partir de uma intervenção médica ou com o seu aval.

Hoje a pseudociência nada de braçada. A moderna medicina, baseada em evidências, é usada e abusada, como justificativa para a aplicação de técnicas ultramodernas, com resultados encorajadores, mas também abre espaço para a os enganadores, para a medicina alternativa , para o tratamento de exames ao invés de pacientes. Assim Dr. Knock assegura um lugar para cada um em seu hotel-hospital e duvido que você não conheça pelo menos uma pessoa que está agora, neste momento, sendo envenenada pelo glúten ou tendo sua saúde ameaçada por um copo de leite.

NOTAS:

[1] Scientific American Brasil,155:20,2015

* Neurocientista e divulgador de ciência. Licenciado em física, mestre em bioquímica e doutor em fisiologia. Professor titular de Departamento de Biofísica, IB/UFRGS. Coordenador da disciplina de exobiologia.

[2] Knock ou Le Triomphe de la medicine é uma peça escrita pelo escritor francês Jules Romains. Ela foi apresentada pela primeira vez em Paris no Théâtre des Champs-Élysées, no dia 15 de dezembro de 1923 e depois recebeu uma adaptação para o inglês pelo jovem Orson Welles, então com 16 anos, no Peacock Theatre, em Dublin. Há também duas adaptações cinematográficas da peça Knock ou Le Triomphe de la medicine, de 1933, dirigido por Roger Goupillières e Louis Jouvet e Dr Knock, de 1951, dirigido por Guy Lefranc.

[3] Para ser justo, Machado de Assis, em seu conto O Alienista, de 1882, já aborda tema semelhante, com relação à saúde mental

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