Você já ouviu falar em “mindful eating” ? – Comer com atenção plena?

 

Estratégias comuns para reduzir o peso corporal normalmente dependem de limitar a ingestão de energia e restringir as escolhas alimentares. No entanto, essas estratégias muitas vezes se mostraram ineficazes para alcançar redução de peso sustentável e de longo prazo.

Mais recentemente, a alimentação consciente como uma estratégia alternativa de controle de peso ganhou crescente atenção.

A ideia central é dar mais atenção ao que colocamos na boca – e, assim, aproveitar uma refeição de forma mais saudável e satisfatória. São várias as atitudes, mas que podem ser resumidas em 12 passos. Nada de novo, e algumas das práticas já milenares, centenárias ou do costume de nossos avós, como por exemplo, dar graças pela refeição recebida. Veja:

  1. Desconecte-se à mesa! Nada de ficar no celular ou assistir TV nas refeições
  2. Antes de iniciar, prepare-se para comer:  observe o aspecto e textura dos alimentos que vai ingerir
  3. Sente-se à mesa de uma forma confortável
  4. Utilize os talheres com calma,  descanse-os, troque para a mão não dominante e aprecie tudo com calma.
  5. Delicie cada mordida: preste atenção no cheiro, na temperatura e na textura da comida
  6. Experimente fechar os olhos em algumas garfadas. a supressão da visão pode exaltar a percepção do sabor e do cheiro do que você está comendo
  7.  Pense na origem e na cadeia produtiva que permite aos alimentos chegarem ao seu prato
  8. Qual a sua sensação: conforto, alegria, satisfação… ou apenas pressa ?
  9. Esqueça o que sabe sobre nutrientes e calorias
  10. Aprecie o entorno: onde e com quem está
  11. Tente dar uma nota para sua fome e para sua saciedade
  12. Finalize contemplando e agradecendo pela refeição

Mas será que funciona ?

Em sua edição de 01/08/19 a revista Obesity Reviews traz um artigo de pesquisadores suiços, que resolveram averiguar:

Mindful eating and common diet programs lower body weight similarly: Systematic review and meta‐analysis

Os autores fizeram uma revisão sistemática e meta-análise , que é uma técnica estatística especialmente desenvolvida para integrar os resultados de dois ou mais estudos independentes, sobre uma mesma questão de pesquisa, para saber se havia evidências favoráveis à aplicação de  programas de perda de peso baseados em alimentação consciente ou intuitiva.

Foram incluídos um total de 10 estudos e descobrimos um efeito significativo da perda de peso de estratégias alimentares conscientes / intuitivas em comparação com pacientes que não utilizaram o método. No entanto, não houve diferença em comparação com programas de dieta convencional.Também não houve redução significativa do IMC ou circunferência da cintura.

Os autores concluem que a alimentação consciente / intuitiva pode ser uma abordagem prática para o controle de peso. Lembram que as limitações deste estudo incluem o sexo desequilibrado, a origem, o local de residência dos participantes e a curta duração das intervenções. Pesquisas futuras devem procurar investigar os efeitos a longo prazo e incluir uma população de estudo mais heterogênea.

Na nossa opinião é apenas mais uma alternativa para o tratamento da obesidade, interessante e educativa, mas não superior a nenhuma das já existentes. Nada contra, desde que você se adapte.

 

Coma comida!

Desde a minha formação no ano de 2008, lá em BH, eu nunca me considerei uma nutricionista convencional. Quando digo convencional quero me comparar a 90% dos profissionais que fazem sucesso por ai, seguindo premissas nutricionais que não tem nenhuma (ou pouca) comprovação científica e fazendo de alguns alimentos a salvação para muitos dos nossos problemas de saúde. Sim, eu acredito que o alimento pode ser o nosso remédio, como já disse Hipócrates alguns séculos atrás, mas também acredito que a qualidade da nossa alimentação tem relação muito mais íntima com o nosso bem estar e prazer do que qualquer outra coisa.

comfort_food

Quando eu e meu pai nos sentamos e decidimos começar a escrever nossas opiniões sobre saúde e alimentação em um blog, lembro que escolher o nome foi uma das tarefas mais difíceis que nos apareceu. Foi quando atendi meu primeiro paciente no consultório, ainda como uma recém formada, que vi que a solução estava mais próximo do que eu imaginava. Ele logo me questionou, nos primeiros minutos de consulta, o que poderia e não poderia comer. Respondi prontamente: “Você pode comer de tudo. O que quer saber se pode ou não comer?”. Ele me retrucou: “Mas tudo pode? Até batata frita?”. A minha tréplica, obviamente, virou o nome deste blog que, entre trancos e barrancos, já está alcançando seu sexto ano de existência.

A origem de minha conduta não-convencional, além da excelente influência paterna e materna em relação a qualidade e a importância da minha alimentação, vem também de tudo que aprendi na faculdade de nutrição. Me lembro bem que a grande maioria de meus professores, que eram nutricionistas, sempre defenderam a alimentação balanceada como a solução de qualquer problema. A dietoterapia, as aulas de nutrição e metabolismo, as práticas em técnica e dietética sempre abordaram a importância de cada alimento, a história de cada preparação, a maneira como eles podem ou não ser prejudiciais à sua saúde. Os alimentos, em sua forma única e natural, eram o fio guia de todas as nossas disciplinas, e foi na faculdade que aprendemos a apreciar e consumir cada um deles da maneira correta. No meu universo de estudante de nutrição (como também no de meus professores) não existia discussão sobre a prescrição de produtos “no lac”, “no gluten” ou “no sugar” como alternativas para tratar indivíduos saudáveis, nem mesmo para alimentar atletas. Veja bem, quando éramos estudantes estes produtos eram cogitados para ser prescritos para indivíduos com alguma intolerância ou doença que não os permitisse consumir estes alimentos em sua forma original – e mesmo assim, sempre fomos incentivados a procurar alternativas naturais a estas intolerâncias, evitando o máximo possível o consumo de alimentos industriais manipulados.

mata_engorda

Apesar de reconhecer a importância do avanço da indústria alimentícia neste caminho, oferecendo cada vez mais alternativas para quem tem limitações nutricionais específicas, eu não me canso de refazer algumas perguntas diariamente: Quando é que as escolas de nutrição começaram a formar nutricionistas que defendem com unhas e dentes a prática da alimentação restritiva? Quando é que nós, nutricionistas sérios e formados em boas faculdades, nos esquecemos o que é saber comer? Quando foi que nós começamos a obedecer a exigência dos nossos pacientes e ignoramos no mínimo quatro anos de aprendizado concreto sobre alimentação e suas influências? Quando é que deixamos que musas fit, revistas, jornais e programas de TV estabelecessem o que é saudável e o que não é na nossa alimentação?

Precisamos reencontrar o caminho do bom senso e fazer as pazes com os nossos hábitos alimentares. Comer de tudo faz bem, faz muito bem, desde que seja de maneira equilibrada. Michael Pollan, que ilustra o topo da página do nosso blog, diz em um de seus livros: “Coma comida, não em excesso”, mas eu lhe peço permissão para fazer uma pequena alteração em sua frase para concluir o meu raciocínio: “Coma comida e não complique.”

escritopor2marina

Coma isto, não coma aquilo

FitnessOs meios de informação na área da saúde e nutrição não param de crescer. Blogs, perfis em redes sociais como o Instagram e Facebook, sites e a onda fitness, que tomou conta do mercado da saúde, estão deixando as pessoas que acompanham a estas notícias mais malucas a cada dia. Não é pra menos. Muitos mal levantam da cama e, quando vão consultar sua rede de notícias já encontram fotos de partes do corpo de amigos, famosos e profissionais que seguem. E neste caso não vemos um bumbum (para não dizer “bunda”), abdome ou pernas quaisquer, mas sim a de um corpo sarado, sonho de qualquer garota, ou garoto, que passa o dia inteiro na academia. Este ritmo acaba tornando o “mundo fitness” desejado por muitas pessoas. Sem desmerecer o esforço de ninguém (especialmente daqueles que conseguem alcançar o modelo de corpo que tanto amam), é importante salientar que o que é bom para uma pessoa pode não ser para outra, e que seu corpo pode não responder da mesma maneira que o corpo do seu amigo responde a estímulos físicos.

frutasVou explicar melhor. O que mais me preocupa não são os bumbuns, os abdomens, os silicones ou os corpos sarados. O que mais me preocupa de verdade são as “dicas” de nutrição repassadas por pessoas que sequer possuem conhecimento, e formação, para tal. Acho digna a exposição da vida de um atleta, de hábitos de vida saudáveis, de exemplos (afinal de contas redes sociais estão sendo usadas para isso), mas o tal do “coma isto e não aquilo” é o que me incomoda. Como a alimentação de um sujeito que mede 1,65 m e pesa 55 kg pode ser a mesma para um que mede 1,80 m e pesa 75 kg? Com base em quê, por exemplo, alguém pode alegar que comer um pudim light é melhor do que comer uma fruta? A explicação destes “especialistas” para a troca, é que a fruta contém açúcar e o pudim não, mas se “esquecem” de informar que o doce light está repleto de amido de milho, edulcorantes, ciclamato de sódio e sabe lá mais o que. E a fruta que deveria ser consumida em 4 porções diárias está sendo discriminada por que ela contém vitaminas, sais minerais, propriedades funcionais e finalmente a frutose, o açúcar.

xaropaMeu caros, é um prazer informar que não é a frutose das frutas que te faz mal, o que te faz mal é aquela frutose que vemos nos rótulos dos alimentos industrializados, o pudinzinho, sabe? Aquela frutose derivada do milho: o xarope de milho que muitas vezes é geneticamente modificado. Então não me venha com essa de não comer frutas porque a fulana disse que fruta engorda. O xarope de milho sim, esse é responsável pelos quilos a mais, por doenças metabólicas e problemas de saúde e não o mamão que é consumido no café da manhã.

espelho1-290x290A troca da fruta pelo pudim light é apenas um exemplo de orientações erradas que vi circulando nas redes sociais. Usei para demonstrar até que ponto está indo a obsessão pelo corpo perfeito e pela alimentação mais “saudável” do mundo; até que ponto está chegando a nossa obsessão por “ser aceito”. Devemos lembrar que qualidade de vida não é comida sem sódio, sem glúten, sem açúcar, sem gosto, sem comida, só pó. Qualidade de vida é, acima de tudo, ser feliz, se aceitar, sentir o prazer de sentar à mesa com a família no domingo e comer uma macarronada com bom vinho tinto – e não se culpar por isto.

Já existem casos de meninas que desenvolveram transtornos alimentares através de redes sociais, seguindo orientações distribuídas em perfis de garotas que levam uma vida “fitness”. O que não podemos esquecer é que estas “fit girls” são muito bem instruídas, por profissionais gabaritados, que evitam que elas cometam erros que possam prejudicar a própria saúde. Por este motivo, ao invés de virar um fiel seguidor das dicas das “fit girls”, que tal procurar um profissional da área da saúde de confiança? Este sim vai te orientar e te ajudar a viver de maneira mais saudável, de acordo com as suas necessidades e seus limites. Nunca se esqueça que o que é bom para a colega da rede social pode não ser bom para você. 😉

escritopor2gabriela

Você está de Dieta? Sem querer ser pessimista, mas provavelmente não vai dar muito certo.

Calma, calma, calma! Não sou eu quem estou dizendo isso.

Uma das coisas que ultimamente mais incomoda é a maneira como as pessoas têm lidado com certas situações. Um exemplo disso é que não existe como ganhar dinheiro sem trabalho. Ora, trabalho é isso: esforço, labutação! Daí me vem alguém e lança a moda do “Ganhe dinheiro sem sair de casa!”.  Onde está o esforço nisso? Você vai ganhar para ficar em casa, sem fazer algo que exija esforço? Brincadeiras a parte, com a alimentação não tem sido diferente. Acho bem engraçado quando vejo alguém com adesivo nos carros ou com botons em roupas com o escrito “Perca peso. Pergunte-me como!”, eles fazem isso parecer tão simples, tanto quanto quem ganha dinheiro sem sair de casa.

Sempre achei bacana as leis da saúde praticadas por Galeno. Galeno considerava que se nós controlássemos as nossas emoções, evacuássemos diariamente, dormíssemos o suficiente, respirasse o ar puro, ingerisse os alimentos corretos e tomasse as bebidas adequadas, seria o suficiente para evitar a maior parte das doenças da época (até aqui nada muito diferente do que escutamos até hoje – e olha que ele viveu entre os anos de 129 – 210 DC).

Uma pesquisa realizada pela Universidade do Colorado afirma que um terço de todas as mulheres e um quarto de todos os homens nos Estados Unidos, estão em dieta.  Você se inclui nesses dados? Bom, assista esse vídeo apresentado pela Neurocientista Sandra  Aamodt, que mostra de forma bem simples e interessante o porque as dietas não funcionam.

escritopor2evandro

Médicos britânicos testam dietas da moda

Na onda das dietas da moda dois irmãos britânicos, que também são médicos, encararam um desafio alimentar que foi registrado pelo canal BBC 2. No documentário “Sugar vs Fat” (ou Açúcar versus Gordura), os irmãos resolveram seguir duas das mais famosas dietas da moda. Alexander fez a conhecida “dieta da proteína“, retirando todo o carboidrato de sua alimentação e Chris ingeriu o mínimo de gordura possível (escolhendo alimentos com até 2% de gordura na composição). Como são gêmeos o estudo se torna ainda mais interessante por podermos relevar a influência de fatores genéticos no período em restrição alimentar.

alex_chris

Como resultado ambos tiveram redução de peso corporal, sendo que Chris (o de restrição de gordura) perdeu um pouco a menos que seu irmão, que restringiu carboidratos. Mas o que torna o estudo importante são os relatos dos irmãos sobre como se sentiram durante o período dietético: Alexander afirma que se sentia frequentemente cansado e sem fôlego para simples atividades físicas, além de queixar de dores de cabeça intermináveis. Em um teste de raciocínio feito com os dois irmãos com um similador de ações para ganhar dinheiro Chris foi pelo menos três vezes mais eficaz que o irmão, o que reforçaria que a falta de carboidrato também prejudica o desempenho mental do indivíduo. Em compensação Chris, apesar de não relatar cansaço, queixou se sentir insaciável, tendo que buscar por todo o tempo algo para beliscar.

O mais interessante foi o resultado dos exames de sangue que mostraram que Alexandre utilizava sua musculatura corporal como uma das fontes para produção de energia, devido a falta de carboidrato, podendo justificar a queixa de seu cansaço extremo, e para Chris as taxas de açúcar sanguíneo aumentaram significativamente, provavelmente por causa de sua busca por saciedade constante.

A conclusão dos dois médicos foi que o ganho de peso não está relacionado exclusivamente com o consumo de gordura ou carboidratos, mas sim de uma associação entre o excesso da ingestão dos dois alimentos. A moderação é sempre a chave para se manter bem!

Para os curiosos de plantão a notícia original se encontra no site da BBC.

escritopor2marina

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: