Dieta pobre em carboidratos e rica em proteínas pode ?

Dois trabalhos, realizados em 2012 (1,2) analisaram o efeito das dietas com baixo teor em carboidratos  (≤45% das necessidades energéticas derivadas de carboidratos) versus dietas com baixo teor de gordura (≤30% derivada de gorduras), nos fatores de risco cardiovasculares.Os dois trabalhos mostraram que ambas as dietas foram eficientes em causar diminuição de peso e melhorar os fatores de risco cardiovascular.

Quando comparados, com os  participantes que ingeriram dietas pobres em gordura,  os que receberam dietas de baixo teor de carboidratos tiveram uma redução, estatisticamente significante  no colesterol total, no LDL colesterol , aliados a um aumento no HDL colesterol e uma maior redução nos triglicérides. A redução no peso corporal,  circunferência abdominal e outros fatores de risco não foram significativamente diferentes nos dois grupos.

Um trabalho recente de  2014 confirmou os efeitos de uma dieta com baixo teor de carboidratos em um trabalho randomizado (3). Os autores concluíram que uma dieta com baixo teor de carboidratos  é mais eficiente que uma dieta com restrição em gordura para promover perda de peso, riscos cardiovasculares.  Restringir carboidratos poderia assim ser uma opção para pessoas que precisam perder peso e reduzir seus fatores de risco cardiovascular.Estes achados sugeriram que uma dieta com restrição de carboidratos são no mínimo tão eficientes quanto as dietas de baixo teor em gordura para reduzir o peso corporal e melhorar os fatores de risco metabólicos e incentivaram um amplo uso destas dietas nos últimos anos.

Desde então, estas dietas têm sido amplamente prescritas ou utilizadas de maneira não orientada. Mas o que ambos trabalhos foram unânimes em indagar é : quais seriam os efeitos de uma dieta destas a longo prazo ? Esta também é a preocupação do Batata Frita Pode.

Outros trabalhos começam a mostrar os riscos a longo e médio prazo do consumo de dietas ricas em proteína. Embora as dietas com baixo teor de carboidratos possam melhorar marcadores metabólicos, haverá um custo ?  Não há dúvida de que esta melhora é eficiente para a prevenção e tratamento de pacientes com diabetes tipo 2 e síndrome metabólica, mas qual é, por exemplo, o seu efeito na função das paredes arteriais ? Qual o efeito do consumo de altas quantidades de gordura e proteínas, por exemplo, na função renal ?

Achados recentes têm mostrado que um padrão alimentar caracterizado por baixa ingestão de carboidratos, mas altas quantidades de proteínas e gordura estão associados  com pior reatividade vascular das arteríolas em pacientes em risco de doenças cardiovasculares.(4). Também tem sido mostrado que dietas com alto teor de proteínas , e reduzida quantidade de carboidratos e fibras resultaram numa diminuição dos metabólitos fecais protetores contra o câncer de cólon e num aumento dos metabólitos perigosos. Assim,  uma longa aderência estas dietas pode aumentar o risco de câncer e doenças colônicas. (5)

Na nossa opinião, dietas que privilegiem a ingestão de um grupo macro alimentar, em detrimento de outro, não têm sustentação fisiológica e são certamente antinaturais, quando indicadas para uso a longo prazo, ou de forma permanente. Contudo, por curtos períodos, em pacientes selecionados, sob supervisão médica e nutricional, elas talvez possam ser uma estratégia temporária, útil, para obtenção de uma redução imediata dos riscos metabólicos e cardiovasculares.

BIBLIOGRAFIA SELECIONADA:

(1) F. L. Santos,  S. S. Esteves,  A. da Costa Pereira, W. S. Yancy Jr and J. P. L. Nunes. Systematic review and meta-analysis of clinical trials of the effects of low carbohydrate diets on cardiovascular risk factors. Obesity Reviews, 2012: 1048–1066.

(2) Tian Hu,Katherine T. Mills,Lu Yao,Kathryn Demanelis,Mohamed Eloustaz,William S. Yancy Jr,Tanika N. Kelly,Jiang He and Lydia A. Bazzano.Effects of Low-Carbohydrate Diets Versus Low-Fat Diets on Metabolic Risk Factors: A Meta-Analysis of Randomized Controlled Clinical Trials. Am. J. Epidemiol. (2012) 176 (suppl 7): S44-S54. doi: 10.1093

(3) Lydia A. Bazzano,; Tian Hu, Kristi Reynolds, Lu Yao, Calynn Bunol, Yanxi Liu, Chung-Shiuan Chen, Michael J. Klag, Paul K. Whelton, and Jiang He.Effects of Low-Carbohydrate and Low-Fat Diets: A Randomized Trial

(4) Jordi Merino, Richard Kones, Raimon Ferré,Núria Plana, Josefa Girona, Gemma Aragonés, Daiana Ibarretxe, Mercedes Herase Luis Masana.Negative effect of a low-carbohydrate, high-protein, high-fat diet on small peripheral artery reactivity in patients with increased cardiovascular risk. British Journal of Nutrition :Issue 07 / 2013, 1241-1247

(5) Wendy R Russell, Silvia W Gratz, Sylvia H Duncan, Grietje Holtrop, Jennifer Ince, Lorraine Scobbie, Garry Duncan, Alexandra M Johnstone, Gerald E Lobley, R John Wallace, Garry G Duthie, e  Harry J Flint.High-protein, reduced-carbohydrate weight-loss diets promote metabolite profiles likely to be detrimental to colonic health. Am J Clin Nutr May 2011:1062-1072.

Macronutrientes ou Ingestão Calórica? Qual o vilão da saúde?

Nesta semana a revista Science Now comentou o artigo publicado na última edição da respeitada revista Cell Metabolism, por pesquisadores australianos, em que se discute que a proporção de macronutrientes e não a quantidade de calorias ingeridas, seria responsável pela saúde cardiovascular, longevidade e envelhecimento. A tese é interessante, pois reverte o pensamento usual de que a longevidade estaria intimamente relacionada à quantidade de calorias ingeridas. 

dieta

Trabalhos recentes  têm sugerido que o balanço entre a energia oriunda de proteínas e da energia não proteica na dieta é extremamente significativa e influenciaria tópicos tão essenciais como a ingestão calórica total, crescimento e desenvolvimento, composição corporal , reprodução, envelhecimento, a composição da flora microbiana intestinal, a susceptibilidade à obesidade e à síndrome metabólica, a função imune e a resistência a doenças infecciosas.
O estudo foi realizado com camundongos que se alimentavam livremente, com dietas de diferentes composições – proteínas (5-60%), gordura (16-75%), carboidratos (16-75%) e energia (8,13 ou 17 kJ/g). Os principais resultados foram:
 – Houve um efeito regulatório da ingestão com a modificação da composição das dietas: quando a concentração de proteínas ou carboidratos diminuía na dieta a ingestão crônica de alimentos aumentava. Estes efeitos regulatórios foram evidentes  principalmente para proteínas, e depois para carboidratos. Em contraste o conteúdo de gordura da dieta tinha efeito mínimo na ingestão alimentar. Por outro lado tanto a ingestão proteica, quanto a de carboidratos desaceleravam quando a sua proporção aumentava na dieta. De novo o mesmo não ocorria com a ingestão de gorduras.
– O tempo médio de vida foi maior para os animais cuja ingestão foi baixa em proteínas e alta em carboidratos, mas não foi influenciado pela quantidade de calorias ingeridas.
– A relação entre dieta e longevidade foi associada com a ativação de mTOR hepático (Mammalian target of rapamycin ou mTOR é uma proteína da família das quinasse, que regula o metabolismo, crescimento e proliferação celular). A insulina e mTOR estão fortemente envolvidos na relação entre dieta e envelhecimento. Os aminoácidos, particularmente os de cadeias ramificadas (BCAA), são os sinais chave para a liberação de insulina e a ativação de mTOR.
– O balanço dos macronutrientes influenciou diversas características fenotípicas importantes, incluindo peso e composição corporal, pressão arterial, tolerância à glicose e lípides, infiltração de gordura no fígado e densidade mineral óssea. Dietas que eram pobres em proteínas e alta em carboidratos foram associadas a pressão arterial mais baixa, melhor tolerância à glicose, maiores níveis de HDL-colesterol, e menores níveis de LDL-colesterol e triglicérides. Trabalhos com humanos têm mostrado que dietas mais ricas em proteínas e pobres em carboidratos têm relação com maiores índices de doenças cardiovasculares.
E qual conclusão podemos tirar disto? Na nossa opinião os resultados devem ser avaliados com cuidado, por ser referente a camundongos sem relatar se são aplicáveis a humanos. Em todo caso, provavelmente, o estudo  fortalece a tese de que dietas mais equilibradas são mais saudáveis que dietas que alterem radicalmente a sua composição a favor de um ou outro nutriente. Especialmente as dietas da moda como as de hiperprotéicas (como as de Duncan ou Atkins), podem ser altamente perigosas a longo prazo. Você quer viver muito? Coma pouco e de tudo, de preferência nas proporções recomendada pela nossa boa e velha pirâmide alimentar: carboidratos e vegetais como base, pouca proteína (especialmente carne vermelha) e gordura e praticamente nenhum açúcar e sal adicionado. Simples assim.
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