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Publicado originalmente por Marina Silva em 13 de Outubro de 2013

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Com as notícias vinculadas recentemente pela internet sobre fraudes de suplementos, é necessário que o nutricionista tome consciência de seu papel na elaboração de novos produtos de forma caseira e de alguns riscos inerentes do processo de concentração e industrialização dos alimentos.
Alguns pacientes relatam enjoo e dor abdominal ao utilizar suplementos concentrados, principalmente na forma hidrolisada. Isto ocorre por que proteínas HIDROLISADAS  (quebradas a aminoácidos)  podem ser totalmente ou parcialmente hidrolisadas, levando a um aumento da concentração de aminoácidos livres.
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Os componentes nutricionais que mais influenciam a osmolaridade da solução são principalmente os açúcares mais simples; os aminoácidos cristalinos e, em menor grau, os peptídeos; e o cloreto de sódio (NaCl). Aminoácidos isolados apresentam uma  osmolaridade (capacidade de “reter” água), mais alta que proteínas intactas e acabam causando  “perda da agua intracelular” para o estômago e intestino, o que pode causar  desconforto. Os lipídeos não influenciam a osmolaridade, pois não formam solução.
Para nivelar a osmolalidade da solução de nutrientes no lúmen intestinal, os capilares das vilosidades cedem água por difusão. Portanto a osmolaridade dos produtos deve-se aproximar o máximo possível da osmolaridade plasmática (290 mOsm/l). O estômago suporta bem até 550 de carga osmolar, mais do que isso tende a causar diarréia e vômito (GAYTON, 2006; WAITZBERG, 2006; NETO, 2003)
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Durante a atividade física, a suplementação de BCAAs pode resultar no aumento da síntese proteica muscular, diminuição do catabolismo proteico durante e após o exercício segundo os fabricantes, mas estes dados não são comprovados cientificamente.
Entretanto, doses acima de 20g/kg/dia de BCAA podem provocar problemas gastrointestinais, como diarreia e comprometer a absorção de outros aminoácidos (WILLIAMS, 1998). Os suplementos normalmente tem alta osmolaridade por conter grande quantidade de sódio, açucares e neste caso aminoácidos isolados (decorrente da hidrólise), além disto alguns estudos mostram que o whey protein poderia aumentar o nível circulante de insulina, levando ao aumento da adiposidade abdominal, inflamação dos enterócitos, e consequente resistência á insulina e diabetes tipo 2 (FISCHBORN, 2009; LIMA, 2007; HARAGUCH, 2006).

 

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Portanto, prefira alimentos mais fisiológicos. Whey Protein é soro de leite liofilizado, exatamente como a ricota que é hidratada, Como nutricionista seria interessante você fazer preparações que pudessem alternar o uso dos dois, já que ricota é mais fisiológica e muito mais barata. Sugestão: Faça uma caderninho com algumas preparações que contenham ricota, como flãs doces, vitaminas, pastas para pães.

Referências:

FISCHBURN, S.C. A influência do tempo de ingestão da suplementação de whey protein em Relação à atividade física. Revista Brasileira de Nutrição Esportiva, São Paulo v. 3, n. 14, p. 132-143, 2009
LIMA, G. G.; BARROS, J. J.; Efeito da suplementação com carboidratos sobre a resposta endócrina, hipertrofia e a força muscular. Revista Brasileira de Prescrição e Fisiologia do Exercício, São Paulo, v.1, n.2, p.74-89, Mar/Abr, 2007
HARAGUCH FK, ABREU WC, PAULA H. Proteínas do soro do leite: composição, propriedades nutricionais, aplicações no esporte e benefícios para a saúde humana. Rev. Nutr., Campinas, 19(4):479-488, jul./ago., 2006;
GUYTON, A.C.; HALL, J.E. Tratado de Fisiologia Médica. 11ª ed. Rio de Janeiro, Elsevier Ed., 2006.
WAITZBERG, D. L. Nutrição oral, enteral e parenteral na prática clínica. v.1, v.2. São Paulo: Atheneu, 2006.
TEIXEIRA NETO, F. Nutrição Clínica. Rio de Janeiro, RJ: Guanabara Koogan, 2003
WILLIAMS, M.H. The ergogenic edge: pushing the limits of sports performance. Human Kinetics, 1998

Marina Silva

Por que devemos parar de comer Quinoa?

“No Reino Unido existe uma campanha para incentivar a população local a evitar o consumo de quinoa por causa de seus efeitos na população da América do Sul”.

Foi assim que minha conversa, com uma inglesa de 25 anos, sobre a quinoa me despertou a ideia de escrever esse texto. Antes que comecem a queixar-se do título, vou me justificar: não precisamos parar totalmente de comer quinoa, mas é interessante reduzir essa onda de consumo – e vou explicar porque. O título era somente uma estratégia para ganhar sua atenção.

Estive visitando, nas últimas semanas, o Chile e parte da Bolívia, com objetivo meramente turístico. Apesar disso, foi com esse segundo país que aprendi a rever meus conceitos sobre várias coisas na vida – inclusive sobre o consumo de quinoa. Não, não sou jornalista e não fiz nenhuma pesquisa investigativa sobre o assunto – sou somente uma nutricionista curiosa e que viu com os próprios olhos, e ouviu com os próprios ouvidos, como anda a relação da Bolívia com a produção de um de seus alimentos mais importantes: a quinoa.

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Para quem não sabe ou não buscou procurar, a quinoa é um dos alimentos básicos da alimentação de países como a Bolívia, Peru e algumas partes do Chile e, apesar de ser conhecida por milhares de anos por essas populações, só em meados de 2010 é que ela conquistou a atenção de especialistas em alimentação de todo o mundo (se tornando, inclusive, foco de várias campanhas com o apoio contraditório de organizações renomadas como a FAO). A quinoa é uma leguminosa de alto valor nutricional, rica em carboidratos, proteínas e fibras alimentares – características que a tornam um produto único e extremamente saudável. Mas, se ela é tudo isso, não seria besteira tirá-la do nosso cardápio? É sobre isso que eu gostaria de conversar com vocês.

Viajando pelo Parque Nacional Eduardo Avaroa, na Bolívia (onde fica localizado o Salar de Uyuni e outras maravilhas naturais do país), tive a oportunidade de passar algumas horas conversando com nosso motorista – um simpático jovem boliviano chamado Elvis, torcedor do Cruzeiro (acreditem, é verdade!) e um apaixonado por sua nação e suas  tradições. Dentre as várias histórias que Elvis me contou sobre seu país, seu presidente e as recentes conquistas da população local, foi a conversa sobre a quinoa que mais me chamou a atenção. Perguntei a Elvis sobre a importância da quinoa na alimentação local e ele me respondeu com a seguinte afirmativa: “hoje os bolivianos estão deixando de lado o consumo da quinoa para poder vendê-la aos grandes mercados alimentícios. O interesse por esse produto é muito grande”. Questionei novamente sobre como isso afetava a alimentação local e ele disse que os bolivianos preferem se virar com batatas, milhos e outros alimentos locais (e muito menos nutritivos do que a quinoa) do que comprometer suas vendas (por preços relativamente baixos) de quinoa. Trocando em miúdos, Elvis afirmou que tem se tornado cada vez mais raro o consumo de quinoa por populações indígenas ou rurais bolivianas.

Mas aí você me pergunta: se eles estão ganhando dinheiro com isso, qual seria o problema em continuar comprando a quinoa da população boliviana? Essa é uma discussão que envolve várias outras variáveis importantes, que vão desde a manutenção e o respeito por práticas culturas alimentares, a qualidade nutricional da alimentação dessa população, até com o cuidado e a sustentabilidade dos nossos hábitos.

Quinoa Harvest

Vamos falar do primeiro aspecto e, talvez, o que mais me interessa: a manutenção das práticas culturais. Sempre defendi aqui no blog a manutenção de hábitos alimentares que tem correlação com os nossos hábitos milenares, fugindo de modismos e segundo aquelas práticas que sempre foram características da população brasileira: o tradicional arroz com feijão, as frutas regionais e os nossos produtos culturais, fabricados do nosso jeito. É essa prática, inclusive, que o Ministério da Saúde Brasileiro tem tentado reforçar e ensinar para a população local após lançar o último Guia Alimentar para a População Brasileira. Comer é muito mais do que apenas se nutrir – é também uma representação social dos nossos hábitos e da maneira como nos relacionamos e usufruímos do ambiente em que vivemos.

Para os bolivianos também é assim. A quinoa está para eles como o arroz (e o feijão) está para os brasileiros. É a base da sua alimentação, a maneira como encontraram para fugir da desnutrição e se adaptar a ambientes inóspitos como os desertos e os terrenos em grande altitude (que podem ser amplamente inférteis). Quando eles optam, portanto, por vender um produto que é base de sua alimentação para outras populações (como a nossa, por exemplo), eles estão abrindo mão de algo que é extremamente importante para o povo local (ao meu ver até mais importante do que o dinheiro que ganham ao vender a quinoa). Abrir mão da quinoa força os bolivianos a procurar por outros alimentos não-tradicionais, tornando sua alimentação pouco sustentável, com baixos valores de proteína (visto que a quinoa é uma fonte rica em proteína vegetal) e muito, muito mais cara do que deveria ser.

Por isso afirmo que, talvez, seja interessante repensar nossa relação com a quinoa. Não digo que você nunca mais vai poder comer esse alimento tão saboroso e interessante, mas que talvez precise repensar seus hábitos. Nós brasileiros nunca precisamos da quinoa para ser um povo saudável.  Vivemos sem ela até os anos 2000! O mesmo acontece com a população americana e europeia, que nunca precisaram da quinoa para viver bem ou de maneira saudável. A minha opinião é que precisamos voltar a tratar a quinoa como o alimento exótico que ela sempre foi para nós: uma iguaria da América Central para ser apreciada em alguns momentos específicos e não como um produto essencial para o nosso bem estar.

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Não acredito que diminuir o consumo mundial da quinoa vai prejudicar a economia de países exportadores, apesar dessa ser uma afirmativa baseada em nenhuma informação relevante sobre esse assunto (e também baseada no que ouvi de Elvis sobre a Bolívia comprar de volta sua própria quinoa processada nos EUA, ao invés de valorizar o comércio local). Acredito que essa é somente uma maneira simples de tentarmos incentivar a manutenção e a recuperação dos hábitos milenares dessa população, de ajudá-los a manter uma alimentação equilibrada e nutritiva e também de valorizar os nossos próprios produtos locais. Por isso, quando a jovem inglesa me disse que o Reino Unido está reduzindo o consumo local de quinoa para preservar a América do Sul, essa atitude também chamou minha atenção. Penso que seja possível fazer o mesmo por aqui e valorizar ainda mais nossos produtos locais. , em respeito aos hábitos alimentares das populações sulamericanas, mas também em respeito ao meu próprio país e minhas raízes culturais (e alimentares, por que não?).

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