Ainda queremos falar sobre o glúten

Praticamente um ano se passou quando resolvemos fazer um manifesto a favor do consumo de glúten por pessoas que não tem a doença celíaca (leia aqui) e cá estamos nós de novo para falar deste tão temido composto alimentar.

O motivo que me traz de volta a este assunto é muito simples. Nós, aqui do Batata Frita, lemos três reportagens interessantes que falavam sobre a temática da dieta glúten-free. Em duas delas, mais voltadas ao valor nutricional destas práticas alimentares, víamos que existia uma clara tendência em incentivar as pessoas a, talvez, não excluir o glúten de maneira tão radical e precoce da sua alimentação. As alegações eram várias, que passavam da baixa ingestão de fibras em uma dieta sem os alimentos fonte desta proteína, quanto a baixa qualidade nutricional de uma rotina alimentar sem glúten. Na outra reportagem, da revista The Economist, fomos apresentados ao significante aumento do faturamento da indústria alimentícia após o “boom” das dietas sem glúten: o crescimento desta fatia do mercado chegava a 45% de 2011 a 2013, com faturamentos anuais de 15 bilhões de dólares.

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Diante destes fatos eu ainda quero lhe perguntar: será que retirar o glúten da dieta é uma ação motivada por estudos clínicos, ou por uma necessidade do mercado em se reinventar?

Não preciso reforçar aqui o quanto eu julgo importante para a nossa alimentação a ingestão do trigo e de outros alimentos que contém o glúten em sua composição, já que quem nos acompanha sabe direitinho qual é o nosso posicionamento sobre o assunto. Não preciso também dizer que a dieta glúten-free, realizada por pacientes celíacos, não precisa ser deficiente em nutrientes ou valor nutricional, já que hoje, além das alternativas industrializadas sem a proteína, é possível fazer substituições saudáveis que permitem que estes indivíduos tenham uma vida perfeitamente normal. Então porque estamos nos debatendo e protestando contra a prática da dieta glúten-free por indivíduos saudáveis? A resposta para mim (que já estava muito clara na minha cabeça), veio após a leitura destas reportagens.

Nós somos verdadeiras marionetes da indústria alimentícia. Nas últimas três décadas esta tendência só se torna ainda maior. Queremos saber cada vez mais sobre o que faz bem, o que faz mal, o que emagrece, o que dá câncer, o que engorda e o que mata. Por isto dietas da moda fazem tanto sucesso, livros sobre alimentação vendem tanto e produtos da seção diet dos supermercados são os mais caros e mais procurados. A indústria entende muito bem esta demanda e necessidade, e sabe muito bem trabalhar a clientela que tem. Não é suspeito o glúten, que antes era um nutriente como outro qualquer, de repente virar o maior vilão da nossa alimentação? E assim, repentinamente, surgirem tantas alternativas industrializadas para que ele pudesse ser excluído da nossa alimentação? As estatísticas do mercado consumidor são bem claras sobre a procura destes produtos, que é muito maior em grupos de pessoas saudáveis do que por quem tem a doença celíaca. E é esta procura que justifica o grande faturamento do mercado.

Tirar o glúten não vai te fazer mais magro ou mais saudável, mas com certeza vai deixar os bolsos dos produtores destes alimentos ainda muito mais cheios. Você sabia que os produtos sem glúten hoje são mais procurados do que os vegetarianos? Pois é. Talvez tenha chegado a hora de começarmos a rever nossos conceitos em relação a estes alimentos. Quem sabe falando sobre o que dói no bolso chame mais a atenção do que a importância nutricional deste composto alimentar? Quem sabe diminuindo a nossa demanda por estes produtos (desnecessários) para pessoas sem a doença celíaca, conseguimos forçar o mercado para baratear os preços para quem realmente precisa adquirir estes alimentos? Queridos leitores, não deixem de refletir sobre o que estamos falando há mais de um ano, mas se vocês ainda não confiam 100% na nossa opinião não tem problema, é só não deixar de acreditar que a indústria alimentícia não está tão preocupada assim com o seu bem estar como parece.

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Coma comida!

Desde a minha formação no ano de 2008, lá em BH, eu nunca me considerei uma nutricionista convencional. Quando digo convencional quero me comparar a 90% dos profissionais que fazem sucesso por ai, seguindo premissas nutricionais que não tem nenhuma (ou pouca) comprovação científica e fazendo de alguns alimentos a salvação para muitos dos nossos problemas de saúde. Sim, eu acredito que o alimento pode ser o nosso remédio, como já disse Hipócrates alguns séculos atrás, mas também acredito que a qualidade da nossa alimentação tem relação muito mais íntima com o nosso bem estar e prazer do que qualquer outra coisa.

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Quando eu e meu pai nos sentamos e decidimos começar a escrever nossas opiniões sobre saúde e alimentação em um blog, lembro que escolher o nome foi uma das tarefas mais difíceis que nos apareceu. Foi quando atendi meu primeiro paciente no consultório, ainda como uma recém formada, que vi que a solução estava mais próximo do que eu imaginava. Ele logo me questionou, nos primeiros minutos de consulta, o que poderia e não poderia comer. Respondi prontamente: “Você pode comer de tudo. O que quer saber se pode ou não comer?”. Ele me retrucou: “Mas tudo pode? Até batata frita?”. A minha tréplica, obviamente, virou o nome deste blog que, entre trancos e barrancos, já está alcançando seu sexto ano de existência.

A origem de minha conduta não-convencional, além da excelente influência paterna e materna em relação a qualidade e a importância da minha alimentação, vem também de tudo que aprendi na faculdade de nutrição. Me lembro bem que a grande maioria de meus professores, que eram nutricionistas, sempre defenderam a alimentação balanceada como a solução de qualquer problema. A dietoterapia, as aulas de nutrição e metabolismo, as práticas em técnica e dietética sempre abordaram a importância de cada alimento, a história de cada preparação, a maneira como eles podem ou não ser prejudiciais à sua saúde. Os alimentos, em sua forma única e natural, eram o fio guia de todas as nossas disciplinas, e foi na faculdade que aprendemos a apreciar e consumir cada um deles da maneira correta. No meu universo de estudante de nutrição (como também no de meus professores) não existia discussão sobre a prescrição de produtos “no lac”, “no gluten” ou “no sugar” como alternativas para tratar indivíduos saudáveis, nem mesmo para alimentar atletas. Veja bem, quando éramos estudantes estes produtos eram cogitados para ser prescritos para indivíduos com alguma intolerância ou doença que não os permitisse consumir estes alimentos em sua forma original – e mesmo assim, sempre fomos incentivados a procurar alternativas naturais a estas intolerâncias, evitando o máximo possível o consumo de alimentos industriais manipulados.

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Apesar de reconhecer a importância do avanço da indústria alimentícia neste caminho, oferecendo cada vez mais alternativas para quem tem limitações nutricionais específicas, eu não me canso de refazer algumas perguntas diariamente: Quando é que as escolas de nutrição começaram a formar nutricionistas que defendem com unhas e dentes a prática da alimentação restritiva? Quando é que nós, nutricionistas sérios e formados em boas faculdades, nos esquecemos o que é saber comer? Quando foi que nós começamos a obedecer a exigência dos nossos pacientes e ignoramos no mínimo quatro anos de aprendizado concreto sobre alimentação e suas influências? Quando é que deixamos que musas fit, revistas, jornais e programas de TV estabelecessem o que é saudável e o que não é na nossa alimentação?

Precisamos reencontrar o caminho do bom senso e fazer as pazes com os nossos hábitos alimentares. Comer de tudo faz bem, faz muito bem, desde que seja de maneira equilibrada. Michael Pollan, que ilustra o topo da página do nosso blog, diz em um de seus livros: “Coma comida, não em excesso”, mas eu lhe peço permissão para fazer uma pequena alteração em sua frase para concluir o meu raciocínio: “Coma comida e não complique.”

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Globo Repórter e seu desfavor à sociedade

Nós sabemos que o assunto foi tratado na sexta-feira mas, como também somos filhos de Deus, nós descansamos no sábado e no domingo e aproveitamos para refletir sobre o que o Globo Repórter fez no episódio do dia 26/09.

A temática do glúten já foi discutida aqui no blog na postagem “E o glúten, pode?” e deu um reboliço danado nos comentários. Até eu, que tenho minha dissertação de mestrado defendida na UFMG sobre a temática da doença celíaca, fui “convidada” a estudar mais por alguns dos defensores mais ferrenhos da dieta glúten-free. Mas este não é o mérito da nossa postagem. O que eu gostaria de discutir aqui é o desfavor que o programa da TV Globo, o Globo Repórter, faz para a nossa sociedade quando resolve tratar sobre temas de alimentação em suas reportagens (e não, não vou nem perder meu tempo falando do “Bem Estar” porque graças a Deus muita gente não pode assistir a esta maravilha por causa de seu horário de transmissão).

Não é novidade que o Globo Repórter adora discutir algumas questões sobre saúde em seu programa: ele fala de cura do câncer, do uso medicinal da maconha, da importância da atividade física e qualquer outro tema que está na moda abordar. Mas a alimentação é seu tópico preferido (logo depois da vida selvagem no pantanal ou nas savanas africanas). Apesar de já ter visto algumas reportagens interessantes sobre alimentos da moda e alguns estilos de vida, o Globo Repórter (GR) faz o favor de sempre reforçar mitos dietéticos que nós, nutricionistas sérios, custamos em desmistificar.

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Nesta sexta-feira o assunto era o pãozinho de sal, alimento tradicional do café da manhã da maioria dos brasileiros. Ao invés de falar das vantagens desta prática, da importância do trigo na nossa alimentação, da fonte de energia que ele representa, ou até do valor sentimental que este produto trás para o brasileiro, eles optaram por falar do glúten. Até ai, tudo bem. O glúten é mesmo uma boa temática para um programa investigativo como o GR, já que muitos dos avanços nutricionais e culinários da alimentação da sociedade ocidental foram alcançados graças a ele. O problema é que, ao invés de mostrar as vantagens e os benefícios de um composto alimentar que está sendo, injustamente, criminalizado pela mídia fitness, o GR prefere se unir ao estilo de abordagem que dá mais ibope: a terrorista. Falar que o glúten faz mal é fácil e dá audiência, o difícil é convencer os outros, que já estão convencidos que este composto é maligno ao nosso organismo, de que ele não é vilão. Ainda bem que para estes méritos (e para nos defender de eventuais ataques dos “defensores da alimentação glúten-free” de plantão) existe a orientação do Conselho Federal dos Nutricionistas.

O negócio é que, se para o glúten existe esta orientação formal e profissional sobre o assunto, o mesmo não acontece com outros alimentos que o GR transformou em vilão ou em solução milagrosa para os seus problemas (porque sim, eles fazem isso também). Enquanto o tomate, por exemplo, virou um dos principais causadores de câncer do país (especialmente após a morte do cantor Leandro – lembram?), o Goji Berry era a solução emagrecedora para qualquer homem e mulher que sofresse com alguns quilinhos a mais. Lembrar de cada um do alimentos que já foram “estudados” por este programa televisivo é praticamente impossível para nós. Mas se vocês não vão discutir o que o GR (ou o Bem Estar, Fantástico, Melhor do Brasil, Jornal Nacional, etc) dizem de certo e errado sobre as várias vertentes da alimentação, o que vocês querem dizer com este texto Marina? Nós, do Batata Frita Pode, que SEMPRE falamos aqui que o importante é a moderação com qualquer alimento ou prática dietética, não queremos parecer repetitivos e falar novamente sobre esta nossa premissa. Nós só queremos alertar você leitor para que não acredite em qualquer coisa que vê na TV. Na dúvida pode perguntar aqui pra gente mesmo, que teremos o maior dos prazeres em responder.

Se lhes resta alguma dúvida sobre a nossa capacidade de tirar suas dúvidas sobre alimentação é só clicar na aba “Quem Somos Nós?”, e ver nossa formação. E que os programas de televisão (e as revistas e jornais) tentem cada vez menos responder questionamentos que não cabem a eles, formadores de opinião tão mais fortes do que nós, meros profissionais da área da saúde.escritopor2marina

Contar Calorias Realmente Conta Alguma Coisa?

Hoje nós do BFP resolvemos falar sobre o assunto que costuma aterrorizar bastante as pessoas que se preocupam com alimentação: calorias dos alimentos! Inspirados pela nossa amiga e ex-companheira de blog, Marina Nogueira, nutricionista, e atualmente autora do blog Não Conto Calorias, resolvemos compartilhar da sua brilhante ideia de não contar calorias, e explicar para vocês afinal, o porquê as calorias não importam tanto assim.

Afinal, o Que são as Calorias?

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Muito antes da nutrição e os alimentos apropriarem da palavra caloria, eram os físicos quem as utilizava.  As calorias dos alimentos (ou quilocalorias – kcal) nada mais são do que uma unidade de medida que expressam a quantidade de energia contida em cada grama de um alimento. Essa energia (ou calorias) funciona como uma moeda de troca, ou melhor, como “combustível” para que o nosso corpo exerça todo o seu funcionamento que permite que a temperatura corporal seja sempre mantida, que o coração bata, que o pulmão troque o oxigênio por gás carbônico, que seu cérebro produza os sonhos enquanto você dorme e assim mantenha toda essa complexa máquina biológica trabalhando de forma adequada.

Independentemente se no seu café da manhã você vai preparar um copo de suco de laranja e comer algumas torradas acompanhadas de ovo mexido, ou um iogurte grego 0% gordura as duas opções vão ter em comum às calorias.

Um detalhe que tem que ser considerado quando falamos sobre calorias, é sobre qual será a fonte responsável por oferecê-las. Não importa se vêm dos o alimento tem mais carboidratos (açúcares), menos proteínas ou zero de gorduras, o que importa mesmo é que independente de qual seja a fonte (ou macronutriente), você terá consumido algumas calorias.

Quanto Vale as Calorias?

Para cada grama de carboidrato ou proteína ingerida, você estará consumindo aproximadamente 4 kcal. Em contrapartida cada grama de gordura é capaz de gerar 9 kcal de energia no nosso corpo. No entanto reduzir ou eliminar totalmente o consumo de gorduras na nossa alimentação é um equivoco e deve ser evitado. As gorduras tem papeis importantes no nosso sistema fisiológico e são fundamentais para ajudar na absorção de algumas vitaminas e principalmente na produção de hormônios.

Quando você ficar em dúvida entre comer um pãozinho de sal com manteiga ou pão integral com queijo cottage simplesmente por conta das calorias, vale a pena considerar algumas situações: Qual o tamanho da sua fome? Seu colesterol está adequado? Sua taxa de triglicerídeos está dentro dos limites aceitáveis? Você está tendo problemas em reduzir o seu peso? Tem histórico de diabetes na família?

A diferença entre as calorias das duas situações acima será mínima, mas a fonte das calorias assim como os nutrientes associados serão bem diferentes. É a mesma situação dos refrigerantes e sucos. Em termos de calorias, alguns sucos podem ter calorias bem próximas ou até mais calorias do que um refrigerante. Por exemplo, um copo duplo de suco de laranja, (aproximadamente 240ml) tem o mesmo tanto de calorias do que um copo de refrigerante qualquer. O que vai diferenciar um do outro será o valor nutricional do tipo de bebida que você estará consumindo, ou seja, a diferença estará na qualidade das calorias. Um bom copo de suco natural de laranja (nada de suco de caixinha com gominhos) é capaz de oferecer a você calorias vindas de fonte de açúcar natural, uma boa dose de vitamina C que vai agir como antioxidante e fortalecer o sistema imunológico, e fibras. Em contrapartida, o refrigerante não vai fornecer nada além de doses absurdas de açúcar industrializado, xaropes, e um monte de conservantes químicos e compostos artificiais. De fato, o refrigerante irá te dar energia, mas será mesmo que é só disso que você precisa?

As Calorias e a Fome Oculta!

Pode parecer bem contraditório falar sobre fome quando falamos sobre calorias. Mas a fome oculta existe e é uma realidade de grande parte da população mundial. Reconhecida pela Organização Mundial de Saúde, a fome oculta afeta uma a cada quatro pessoas no mundo todo, não importando se você é adepta as receitas FIT e se tem um cardápio variado, a carência de algumas vitaminas e minerais pode ocorrer.

Embora muitas das vezes essas carências não se manifestem imediatamente, lentamente, dia após dias, pode trazer sintomas e doenças que poderiam ser prevenidas por alguns desses nutrientes que estão em falta no nosso corpo.

Com sintomas muitas vezes confusos a outras doenças, a fome oculta pode se manifestar muitas vezes de forma simples como apatia, fraqueza, sonolência, falta de apetite, alterações no comportamento, e principalmente dificuldades no ganho e perda de peso.

Por se tratar de um tipo de fome, pode acontecer de se julgar como uma situação que acontece somente com pessoas de baixa renda, pela dificuldade de informação e baixo acesso aos alimentos de alto valor nutricional, mas a realidade é há fortes indícios de que essa situação ocorra em todas as classes sociais.

Então, aumento as calorias, divido por dois, ou reduzo tudo a zero?

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Nada disso! Não se trata apenas de aumentar ou diminuir calorias.  Cada pessoa tem uma necessidade específica de quantidades de calorias para executar toda a rotina do dia. Sugere-se que uma dieta saudável de aproximadamente 2000 kcal tenha em média 55% de carboidratos (1100 kcal), 15% de proteínas (300 kcal) e no máximo 30% (600 kcal) de gorduras, mas não é tão simples assim. Cada pessoa tem necessidades que são particulares a ela, ainda mais quando resolvemos considerar a idade, o nível de atividade física, o trabalho diário, a quantidade de gordura e musculo no corpo…não tem como sair generalizando.

Quer uma dica? Procure um bom profissional da nutrição e deixe que ele esclareça todas suas dúvidas. Alimentação e dieta nunca foram para restringir e eliminar o prazer de comer. Quer comer uma pizza de frango com catupiry? Coma! Quer comer um hambúrguer com cheddar? Coma também! E uma feijoada com couve e laranja no almoço de domingo com sua família? Coma sem problemas. Ao invés de ficar preocupado com as calorias, coma com prazer e compartilhe casos, histórias e a refeição, porque afinal, o que conta mesmo, é o que se faz de bom e se tem prazer pro nossos corpo e coração.

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Crítica: Fat, Sick & Nearly Dead

São poucos os filmes (e documentários) sobre transformação, especialmente envolvendo alimentação, que me fazem ficar sentada para assistir. Quando meu chefe me falou sobre “Fat, Sick & Nearly Dead” eu, obviamente, nem sabia do que se tratava e confesso que, mesmo depois de me atualizar sobre o enredo, o documentário do australiano Joe Cross não seria minha opção de lazer na TV. Mesmo assim decidi que devia assistir, muito por causa do meu trabalho, mas também para entender a motivação deste cara que conseguiu mudar de vida, mudando radicalmente a alimentação.

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Acho realmente inspirador quando as pessoas decidem encarar uma transformação total do estilo de vida. A força de vontade de Joe foi realmente surpreendente: não é qualquer um que consegue mudar completamente seus hábitos alimentares, perder mais de 40kg e adotar um estilo de vida saudável em menos de um ano. E é este tom motivacional que carrega o documentário feito por ele, que conta sua própria experiência e de um outro americano, na batalha por uma vida melhor. O vídeo seria lindo se a história parasse por aqui. O que me assustou em “Fat, Sick & Nearly Dead” é que Joe, um empresário bem sucedido, criou por própria conta e risco, uma dieta baseada em sucos de frutas e vegetais. Só suco. É isto mesmo que você ouviu. Vou tentar argumentar aqui neste texto, porque a causa, na minha humilde opinião, é nobre mas perigosíssima.

Apesar de Joe ressaltar que os 60 dias (sim, 60 dias) de suco foram acompanhados de perto por seu médico (como seu colega americano também fez), este fato não isenta os riscos nutricionais inerentes a esta prática. Primeiro porque Joe não é médico, ou sequer um nutricionista. De onde ele aprendeu que misturar tantas frutas e vegetais poderia fazer bem para a saúde? Sim, ele tem resultados supreendentes, mas vamos pensar com um pouco mais de cautela nisto tudo: para um homem obeso, que tinha o hábito de comer ao menos duas pizzas grandes por dia, e quase nenhuma fruta ou vegetais, este suco, além de reduzir drasticamente sua ingestão calórica diária, lhe ofertava vitaminas e minerais que seu organismo jamais tinha acesso. É claro que sua pele, sua disposição e seu bem estar iam surgir após 60 dias de suco. Mas e depois disto? Ele deveria aprender a se alimentar melhor, comendo um pouco de tudo e iniciando atividades físicas, para que ele não recuperasse todo o peso que perdeu neste enorme sacrifício. Para Joe, que ao meu ver é um cara extremamente teimoso e determinado, a mudança deu certo, mas funcionaria para outros tantos milhões de obesos espalhados pelo mundo?

Eu tratei obesos por muito tempo, em consultório e nos hospitais, e posso afirmar com muita certeza de que esta é uma das doenças de mais difícil controle que uma pessoa pode encarar. O obeso não come porque ele é um desobediente, teimoso ou burro. A obesidade vai muito além da vontade de comer, ou da tendência genética, ela é um distúrbio alimentar gravíssimo, com fortes influências do nosso estado emocional e mental. Joe é das poucas pessoas que já vi enfrentar esta barreira mental com tanta força de vontade (e seu amigo caminhoneiro também), mas ele é um entre muitos, e vender a ideia de que é possível se reeducar com sucos prensados de qualquer vegetal e frutas, na minha cabeça, é um crime. Um crime porque vai ser altamente frustrante para a grande maioria que tentar seguir os passos do autor do documentário e ainda mais criminoso porque esta atitude condena o que nós, nutricionistas e médicos sérios, tentamos fazer com nossos pacientes: a reeducação alimentar.

Sempre preguei que o ato de se alimentar é mais do que, simplesmente, ingerir os macro e micronutrentes essenciais para que nosso organismo funcione. Sim, era desta maneira antes de desenvolvermos características de sociedade e de convivência social. Hoje a alimentação é uma parte MUITO importante da nossa vida social, por isto devemos APRENDER a comer, e não fugir de um evento que vá servir algo que você julga muito calórico. Joe relata que sofreu isto em seu filme: parou de ir a eventos familiares, foi julgado por amigos e condenado por grande parte das pessoas que entrevistou na rua. Tudo bem, ele não liga para a opinião alheia, mas já paramos para pensar o que seria esta restrição para uma pessoa já socialmente prejudicada? Um deprimido, um tímido, um reservado? Estas pessoas sofreriam ainda mais com mais uma exclusão. É assim que Joe pretende salvar o mundo com seus sucos?

Não vou nem começar a discutir aqui os aspectos nutricionais dos sucos que ele elaborou, sem sequer entender de combinação de vitaminas, minerais e sítios de absorção. Este não é meu objetivo. O que me revoltou no documentário de uma hora e meia sobre a batalha de Joe e seu amigo para perder peso não foi nem a qualidade do suco, ou por me surpreender positivamente com sua enorme força de vontade, mas sim pelo descaso com a importância de se reaprender a comer. Enquanto continuarmos procurando soluções rápidas e drásticas para combater nosso peso, estaremos muito longe de entender porque é que cada dia que passa estamos cada vez mais obesos.

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Oi, você é nutricionista?

Se você é formado em nutrição, com certeza arrepia quando escuta a pergunta que dá título a este texto. Sim, nós nutricionistas as vezes temos medo de falar que somos nutricionistas pelo simples motivo de não querer escutar os questionamentos que vem a seguir: “Tô precisando tanto de uma dietinha, me ajuda?”, “Quantas calorias tem um prato de macarrão?”, “Nossa, você deve ficar avaliando o que a gente come no almoço né?”. Não, não e não.

Formar-se nutricionista é carregar, para o resto da vida, o fardo de ser visto como uma calculadora biológica ambulante. Já perdi as contas de quantas vezes na vida me perguntaram qual era o valor calórico de um alimento, ou se era melhor cortar o suco de laranja do café da manhã. Tudo bem, as perguntas que chegam até ai não são um problema, faz parte do dever de ser formado em nutrição (apesar da gente não saber de cor os valores calóricos de todos os alimentos do supermercado, da mesma maneira que um químico não sabe todas as informações da tabela períodica e os advogados não sabem citar todas as leis). O problema esbarra no pedido, muitas vezes ingênuo, que vem a seguir: “Faz uma dieta pra mim?”. Amigo, se você não é nutricionista, mas tem um conhecido que trabalha nesta área, preste muita atenção no que vou lhe dizer agora: montar uma dieta não é tão simples o quanto parece.

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Fonte: Diário de um Nutricionista

Resolvi escrever este texto-desabafo há poucos dias, quando ouvi, num intervalo de uma única semana, cerca de seis pedidos para montar dietas. “Isto é ótimo”, vocês diriam. Concordo, seria ótimo se estes pedidos não fossem para “dar uma ajudinha gratuita” a um colega que quer perder peso, afinal, “não custa nada né”? Custa. Custa muito, e vou lhe contar porque. Da mesma maneira que você se formou engenheiro, médico, biólogo, artista, advogado, publicitário ou qualquer outra coisa, o nutricionista também estudou para chegar ao título de bacharel na área. São pelo menos quatro anos de curso, com mais alguns anos de pós graduação, mestrado e até doutorado para quem seguiu carreira acadêmica. Por mais que eles possam ter sido realizados em universidades públicas, este tempo custou dinheiro, investimento em livros, em horas de estudo e em estágios, muitas vezes voluntários, nas múltiplas áreas de nutrição clínica e produção. Quando nos formamos, e seguimos a carreira clínica, o nosso trabalho é sim fazer dietas. E dá trabalho ouvir todas as queixas do paciente, entender todas as suas restrições alimentares, calcular sua necessidade nutricional e descobrir o valor calórico das suas refeições diárias. Não se esqueça que, além disto, temos que montar um cardápio que se adeque a seu hábito de vida, seus horários e que tenha uma enorme lista de substituição de alimentos, para que você não canse de sua rotina alimentar. Não, não é só puxar uma fórmula mágica que se encontra na gaveta do seu consultório. Você com certeza não trabalha de graça (ou se trabalha, não gosta disso). Pois é, nós também não. E montar a sua dieta não vai nos tomar somente a uma hora de duração da sua consulta. Dependendo da complexidade do caso ela pode tomar noites e mais noites da nossa rotina em casa.

Mas não quero dizer, através deste texto, que não fazemos alguns serviços de graça. É claro que acabamos caindo nesta tentação logo que formamos, para ajudar um familiar ou um amigo próximo, ou até mesmo para nos auto-promover,, e nos disponibilizamos para fazer algo muito legal. E logo quando você dá a primeira orientação, para que a pessoa monte um recordatório alimentar de três dias, para que você entenda onde é possível melhorar a alimentação, é possível ouvir a primeira restrição: “Ah, mas eu não sei”, ou a famosa “ah, você não precisa disso né? É só uma dietinha”. Realmente, é só uma dietinha. E é por este motivo que nós, nutricionistas formados, pós graduados, mestres e doutores estamos aceitando ganhar mixaria para trabalhar em hospitais ou clínicas, ou não conseguimos cobrar mais de R$100,00 em uma consulta sem ser chamados de mercenários: porque não é dado o devido valor ao trabalho que é reeducar a alimentação de alguém.

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Fonte: Indiretas do Bem

Nunca me esqueço da frase que uma vez ouvi de uma professora, ainda na faculdade: “Nunca deem de graça o único talento que vocês podem vender”. Fazer dietas é nosso talento. Pode parecer pouco? Talvez. Mas para nós é muito, é trabalhoso e valioso. Por este motivo, estudantes de nutrição, nunca entreguem de graça um trabalho que é seu, por mais que lhe obriguem; nutricionistas, não tenham medo de mostrar seu preço, o valor justo é o valor de seu investimento; pacientes e clientes, valorizem o profissional que você escolheu para te atender, ele é especialista em tratar o seu problema; e por último amigos, colegas de trabalho e familiares, respeitem o trabalho do nutricionista. Se você teve a oportunidade de ganhar um plano alimentar de graça, usufrua o máximo dele – ele não é uma “dietinha de gaveta”, mas sim um documento extensamente trabalhado para sua saúde. Se você não teve esta sorte, por favor, não insista – se você realmente valoriza o trabalho deste profissional, aceite pagar para receber algo que lhe dê resultados reais.

Não espero que este texto consiga mudar o pensamento de ninguém. Nem mesmo de nós nutricionistas. Só espero que tenhamos a consciência de que, para mudar este cenário, primeiro precisamos nos unir para mudar o que nós mesmos pensamos do nosso trabalho.

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