Comer terra pode ?

Comer terra é coisa de louco, não ? Muita gente boa acha que sim. Por exemplo – as doenças psiquiátricas estão classificadas em um guia padrão de referência – o Manual de Estatística e Diagnóstico de Transtornos Mentais (DSMI, na sigla em inglês). O DSMI na quarta edição classifica a geofagia (hábito de comer terra)  como um transtorno de alimentação em que a pessoa consome coisas que não são alimentos, como cinza de cigarro e tinta de parede.

Mas as coisas estão mudando. Um grupo de pesquisadores se fez algumas perguntas mais ou menos óbvias: Se é uma coisa de louco, então porque existem mais de 200 espécies animais que comem terra de alguma maneira ? E porque este hábito é tão comum entre humanos? Todo mundo já ouviu falar que algumas grávidas têm vontade de comer argila. Eu mesmo conheci uma moça, que trabalhava em minha casa, que tendo ficado grávida, passou a comer pedaços do filtro de barro da nossa cozinha.

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Entre nós, os humanos, comer terra não é novidade. Os mesopotâmios e antigos egípcios usavam a argila medicinalmente: cobriam ferimentos com emplastros de barro e comiam terra para tratar de várias doenças, principalmente do intestino, alguns povos indígenas das Américas usavam terra como tempero e mesmo na Europa, até o século XIX, algumas populações costumavam comer terra rotineiramente. Atualmente, os pesquisadores investigam duas linhas de explicações: comer terra serviria para suprir minerais vitais ou para desativar toxinas de alimentos e do ambiente.

Existem casos comprovados de gorilas que vivem em regiões muito altas, que se alimentam de terra para suprir a carência alimentar de ferro e propiciar uma taxa mais elevada de glóbulos vermelhos circulantes, propiciando assim uma melhor oxigenação cerebral. As grávidas comeriam terra porque teriam uma maior necessidade de cálcio à medida que os ossos do feto se desenvolvem  e a geofagia seria uma alternativa ao baixo teor de cálcio da dieta. Mas, há um problema com esta teoria: “parece que ingerir terra não acrescenta quantidades significativas de minerais à nutrição de qualquer ser, humano ou animal e em alguns casos esse comportamento pode interferir na absorção do alimento do intestino à corrente sanguínea, provocando deficiência de nutrientes”.

A segunda explicação é de que comer terra funcionaria como uma espécie de desintoxicação.”Moléculas de argila negativamente carregadas ligam-se facilmente a toxinas carregadas positivamente no estômago e intestinos – evitando que as toxinas penetrem na corrente sanguínea e transportando-as através dos intestinos para serem eliminadas”‘. E as grávidas ? Vejam que interessante explicação: Nas mulheres grávidas o primeiro trimestre da gravidez incomoda muitas mulheres com náuseas e vômitos, e estudos cruzados de várias culturas mostram uma associação entre geofagia no início da gravidez e o mal-estar matinal. Alguns pesquisadores propuseram que o mal-estar matinal elimina as toxinas da mãe, que podem prejudicar o feto. Talvez a geofagia e o mal-estar matinal funcionem em conjunto para proteger o desenvolvimento do feto. Como a argila pode conter bactérias e vírus, ela também protege mãe e feto de patógenos como a Escherichia coli e o Vibrio cholerae presentes em alimentos.”

Até a medicina moderna já se beneficiou de algumas propriedades da terra. O Kaopectate, composto de caulim (terra) foi um medicamento muito popular, que tratava diarreia e outros problemas digestivos. O Kaopectate acabou sendo substituído pelo o composto sintético subsalicilato de bismuto – o principal ingrediente do Pepto-Bismol, mas, confesso, deixou saudades.  A argila ainda é usada atualmente de outras formas. Caulim e esmectitas se prendem não só às toxinas nocivas, mas também a patógenos e os fazendeiros utilizam argila no preparo de ração para a criação para inibir a transmissão de toxinas, e alguns pesquisadores propuseram aproveitar as propriedades de associação patogênica da argila para purificar a água

Calma, não estamos propondo que todo mundo coma terra. Aliás, comer terra pode ser perigoso, juntamente com minerais e materiais desintoxicantes seria possível ingerir bactérias, vírus, vermes parasitas e quantidades ameaçadoras de chumbo e arsênico, por exemplo. Mas, como diz o artigo da Scientific American: “as evidências mostram que, em muitos casos, a geofagia não é um sinal de doença mental, mas uma defesa específica que evoluiu para combater toxinas e provavelmente suprir déficits de minerais. Embora possamos não pensar em geofagia quando tomamos vitaminas ou procuravamos alívio numa colherada de Kaopectate, na verdade estamos participando da prática ancestral de comer terra”

Largamente baseado e adaptado do artigo publicado pela Scientific American: A Vantagem de Comer Terra

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