Sobre a merendeira da Flor Gil e o fascismo nutricional

Tem muito tempo que não escrevo por aqui, não é mesmo? E nada melhor do que voltar ao Batata Frita com uma polêmica que tem esquentado o universo das redes sociais (e, em especial, a minha timeline).

Posso estar um pouco atrasada no timing, mas acho que ainda não consegui me expressar muito bem sobre o frisson que foi causado pela divulgação da foto da merendeira da filha da chef Bela Gil (a fofinha Flor Gil) no último dia 21 de maio.

bela_gil

Eu acredito que, quem me conhece, ou que acompanha minhas opiniões no Batata Frita, sabe o que eu penso sobre o tipo de alimentação que a Bela Gil ensina no canal GNT (programa que eu citei e até elogiei nesse post aqui) e que ela mesma pratica no seu dia a dia. Sempre acreditei que qualquer tipo de restrição alimentar, seja ela para o bem o para o mal, é uma prática prejudicial. Não me importa se você está restringindo o glúten para perder peso, ou eliminando a gordura saturada da sua rotina para melhorar o seu perfil lipídico – para mim, se você tem algum problema de saúde relacionado com a qualidade da sua alimentação, esse problema está na maneira como você se relaciona com a sua comida, e não com o alimento em si (a não ser que, é claro, você tenha algum problema clínico que te impede de ingerir algum nutriente, como a Doença Celíaca ou a Alergia ao Leite).

Eu explico.

Me irritei profundamente com o post da Bela Gil sobre a merendeira de sua filha. Mas não porque ela estava ensinando a filha a comer somente produtos naturais preparados de maneira saudável (até porque, nesse ponto, ela está certíssima), mas sim com o fato dessa prática, de levar batata doce e água para a escola, ser considerada por ela como a única relacionada como uma alimentação saudável para uma menina da idade da Flora Gil.

Vivemos em uma época de tanto fascismo nutricional (obrigada pelo termo Nat Mazoni!) que agora querer preparar um suco de frutas natural para seu filho levar na merendeira para a escola, acompanhado de um sanduíche natural de pão integral com queijo e tomate, é uma falha grave. E que, ocasionalmente, oferecer uma bolacha integral comprada no supermercado, é considerado caso de polícia.

Acho que temos que parar por ai. A gente parece não perceber, mas são nessas pequenas ações isoladas que muitas pessoas (em especial as mais influenciáveis) podem começar a cometer alguns deslizes – e a criar relações desequilibradas entre a sua alimentação e seu psicológico.

Longe de mim tentar ensinar a Bela Gil como alimentar a filha dela, ou a criticar o que ela segue como premissa para alimentação saudável (afinal, se ela realmente é nutricionista, deve saber o que está fazendo), mas posso sim deixar minha opinião sobre esse assunto. Quando me posicionei contra a atitude de mandar uma garrafa de água e algumas fatias de batata doce para sua filha como merenda da escola, eu queria deixar claro para as pessoas que confiam no meu trabalho como nutricionista que esse tipo de atitude, ao meu ver, não é o único que pode ser considerado normal e saudável. Veja bem, a Bela Gil segue uma premissa de alimentação chamada de macrobiótica, onde alguns alimentos e ingredientes (como o leite e o glúten) não são consumidos na sua rotina. Isso significa que você e seu filho precisam ser macrobióticos para manterem uma alimentação saudável? É claro que não.

Acho que as vezes nos esquecemos que a alimentação deve ser uma fonte não somente de nutrição, mas também de prazer para nossos filhos (e tudo bem, eu entendo que aquele lanche pode ser prazeroso para a pequena Flor Gil. E se for, fico tranquila!). Eles também vão se relacionar com seus amigos, familiares, colegas de escola e de trabalho, ao longo da vida, em frente a uma mesa de almoço, ou uma bancada de bar e se não aprenderem a conviver com todo e qualquer tipo de alimento disponível para consumo desde pequenos, como vão evitar que a sua relação com as refeições não sejam construídas da maneira errada? O que existe de errado em provar certas coisas, desde que você saiba o que pode ser ingerido todos os dias e o que não pode?

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Muita gente vai discordar do que eu defendo aqui desde sempre (e não somente nesse texto) e eu não ligo. Acho que o diálogo sobre a alimentação deve ser aberto, para que cada um possa encontrar a sua melhor maneira de se relacionar com sua própria comida. Isso não me impede, entretanto, de tentar colocar aqui na internet uma opção de conduta que não seja tão radical para alcançar um estilo de vida e alimentação saudável, para as mães que talvez não tenham o tempo (ou o dinheiro) para comprar um produto orgânico para seus filhos levarem para a escola. Eu acho sim que é possível ser muito saudável comendo de tudo (inclusive um biscoito recheado de vez em quando) e acho também que as crianças devem participar dessa “inclusão”. Esta sou eu.

“Mas Marina, você está me aconselhando a dar comida industrializada e enriquecida de vitaminas para meus filhos?” Não, não! Longe disso. Só quero dizer que ele comer isso ocasionalmente, em uma festinha de aniversário, ou no lanchinho em um final de semana, não é problema algum.

A base da alimentação do seu filho deve ser SEMPRE pautada na ingestão de alimentos e refeições 100% naturais. O que eu não quero é que você se sinta uma péssima mãe, ou um péssimo pai, porque teve que mandar um pão com requeijão de lanche para seu filho, ao invés de algumas rodelas de batata doce. Lembre-se, a Bela Gil não é o padrão de uma alimentação saudável para o seu filho. Se você tem um pouquinho de bom senso (e eu sei que tem), e sabe separar o que é saudável do que não é, você vai criar o seu próprio padrão de educação alimentar para suas crianças. A escolha é sua (assim como a obrigação de educar também!).

Para finalizar, respeito a opinião da Bela Gil e a maneira como ela cria sua filha e se relaciona com sua alimentação. Se elas estão felizes e são saudáveis assim, isso é um grande mérito delas e eu não estou no direito de questionar essa boa relação. Essa só não será a minha opção de conduta alimentar quando eu tiver os meus filhos. Estou errada? Talvez um dia a ciência me prove isso. Mas posso dizer que eu fui criada com a mesma “liberdade nutricional” por meus pais, e sempre fui incentivada a comer de tudo (inclusive as besteiras de vez em quando) e isso não me torna uma pessoa menos saudável que elas. Pergunte aos meus médicos e tire a contra-prova! 😉

Em tempos de intolerância política, religiosa e comportamental, não queremos também criar a intolerância alimentar (e não estamos falando de intolerâncias clínicas como ao glúten ou ao leite). Acredito que devemos sempre conversar a respeito da nossa alimentação e de como podemos tornar esse hábito mais saudável e sempre prazeroso.

Como você se relaciona com a sua comida e como passa esses ensinamentos para os seus filhos? Deixe seu comentário sobre esse assunto!

escritopor2marina

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19 respostas em “Sobre a merendeira da Flor Gil e o fascismo nutricional

  1. Perfeito texto!!! Vc conseguiu expressar exatamente o que eu como nutricionista e mãe penso e tento agir com o meu filho e minha vida.
    Parabéns pela clareza na explicação, na colocação, na opinião …
    Abraço forte

  2. Marina Silva, muito se tem discutido sobre a qualidade ( ou falta dela) da alimentação do brasileiro, do consumo excessivo de alimentos industrializados e sua repercussão na saúde. O novo Guia Alimentar enfatiza a utilização de alimentos in natura ou minimamente processados, assim como de alimentos regionais, levando em conta a cultura local . Assim, quando a Bela Gil mostra os alimentos da merenda de sua filha, entendo que é uma proposta de oferecer uma alimentação equilibrada e saudável com alimentos próprios de sua região. Não percebi, em nenhum momento, radicalismo ou uma tentativa de culpabilizar os pais, como vc sugeriu. No entanto, causou estranheza as frases usadas por vc, como: “fascismo nutricional” , “ se ela é realmente nutricionista…”, “ me irritei profundamente com o post da Bela Gil….”
    Não é demais insistir que, estimular uma alimentação de qualidade é essencial para a promoção da saúde e prevenção de doenças. Mudanças alimentares saudáveis não são necessariamente mais caras que o refrigerante, biscoitos e doces que são altamente consumidos por nossas crianças, ricos em gorduras saturadas, açucares e sódio.
    Então parabéns para a Bela Gil por apresentar esta proposta e estimular o debate sobre a qualidade da merenda atual.

  3. Eu achei extremamente pertinente o post, poucos blogueiros conseguem colocar um ponto de vista deste modo respeitoso. Acompanho o site a pouco tempo e o que mais me chamou atenção é o modo prático, informativo e critico no conteúdo das matérias. Parabéns!

  4. Também sou nutricionista e concordo com sua posição sobre esse assunto. As pessoas hoje querem ser radicais demais quanto a alimentação, ser exemplo de perfeição e esforço para ser o melhor. O melhor não é o radicalismo, o melhor é viver e fazer da alimentação algo natural, normal, com menos regras e mais naturalidade e equilíbrio. Minhas filhas são criadas assim, obedecendo suas preferências, mas permitindo que elas provem de tudo e aprendam a dar equilíbrio à alimentação.

  5. Esse é o segredo da vida, equilíbrio e bom senso em tudo,também na comida. Tenho dois filhos lindos e saudáveis e prático duas regras simples, prato tem que ser colorido e se nunca comeu tem que pelo menos experimentar. Belo texto Marina!!!

  6. Bravo!!!Concordo plenamente com tudo!!!O importante é o equilíbrio!!!Nada melhor do que se lambuzar de vez em quando com um bom chocolate, a vida fica até mais colorida!!!Parabéns pelo texto!!!

  7. Li o relato de uma professora, num grupo de mães que estavam discutindo exatamente estes radicalismos, que as crianças, as que eram privadas pelos pais de comer estes alimentos, como bolos, bolachas, etc., ficavam pegando as migalhas, esperando até alguém jogar no lixo para pegar estes alimentos proibidos para eles.
    A discussão acima era de uma mãe que relatou que na escola, que distribui lanches para todos igualmente, ela pediu que no dia do bolo (algo feito na escola) não fosse dado a filha. A professora então falou que a criança iria fazer o lanche na sala da diretora, pois controlar o acesso ao bolo seria algo bem complicado entre as crianças. Ah, a menina não tinha nenhuma restrição médica, era decisão dos pais que ela não ingerisse açúcar de nenhuma forma, mesmo num bolo de cenoura.

    Acredito que seja muito mais maléfico, este comportamento onde as crianças literalmente mendigam as guloseimas, que ingerir umas coisinhas classificadas como não saudáveis.

    • Pois é Roberta, veja só que situação complicada! E corre o risco dessa menina, quando se tornar independente o suficiente para fazer as próprias escolhas, se alimentar muito pior do que as outras que comiam bolo de vez em quando né? Obrigada por compartilhar essa experiência!

  8. Quem disse que comer batata frita, tomar sorvete, comer Mc Donalds e industrializado dá mais prazer a comer batata doce assada e outras comidas fora desse pensamento hegemônico? O que é prazer para uma pessoa pode não ser para outra e universalizar esse discurso é cair no senso comum. Não como glúten, açúcar, fritura, gordura saturada, enlatados e afins. E, olha, sou muito, mas muito feliz com meus hábitos. Satisfação que bolo de chocolate algum será capaz de proporcionar.

    É necessário claridade do referencial de início da observação. O meu é o de que cada um come o que quiser, baseado no que acredita e faz bem. Qualquer coisa fora desse espectro é blábláblá. Reitero, verdades universais fazem mal a humanidade

    E, mais, justificar o prazer para excessos e escolhas gastronômicas, ao meu ver, é consideravelmente questionável.

    • Márcio, acredito que estamos falando da mesma coisa. Não defendi em momento algum aqui que o consumo de gorduras ou mc donalds é que traz prazer. E concordo com você sobre cada um come o que quiser e sabe o que te faz sentir prazer. Fico feliz que você esteja bem com seus hábitos e espero que isso te faça muito bem mesmo, de coração. Da mesma maneira que respeito o fato de você não comer glúten, leite e afins (apesar de não concordar com a classificação do açúcar e da gordura nesse mesmo grupo), eu gostaria que você respeitasse a minha opção de comer glúten e leite. No mundo existe espaço para todos, e é isso que eu quis dizer nesse texto. Um abraço e obrigada pelo comentário!

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