Coma comida!

Desde a minha formação no ano de 2008, lá em BH, eu nunca me considerei uma nutricionista convencional. Quando digo convencional quero me comparar a 90% dos profissionais que fazem sucesso por ai, seguindo premissas nutricionais que não tem nenhuma (ou pouca) comprovação científica e fazendo de alguns alimentos a salvação para muitos dos nossos problemas de saúde. Sim, eu acredito que o alimento pode ser o nosso remédio, como já disse Hipócrates alguns séculos atrás, mas também acredito que a qualidade da nossa alimentação tem relação muito mais íntima com o nosso bem estar e prazer do que qualquer outra coisa.

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Quando eu e meu pai nos sentamos e decidimos começar a escrever nossas opiniões sobre saúde e alimentação em um blog, lembro que escolher o nome foi uma das tarefas mais difíceis que nos apareceu. Foi quando atendi meu primeiro paciente no consultório, ainda como uma recém formada, que vi que a solução estava mais próximo do que eu imaginava. Ele logo me questionou, nos primeiros minutos de consulta, o que poderia e não poderia comer. Respondi prontamente: “Você pode comer de tudo. O que quer saber se pode ou não comer?”. Ele me retrucou: “Mas tudo pode? Até batata frita?”. A minha tréplica, obviamente, virou o nome deste blog que, entre trancos e barrancos, já está alcançando seu sexto ano de existência.

A origem de minha conduta não-convencional, além da excelente influência paterna e materna em relação a qualidade e a importância da minha alimentação, vem também de tudo que aprendi na faculdade de nutrição. Me lembro bem que a grande maioria de meus professores, que eram nutricionistas, sempre defenderam a alimentação balanceada como a solução de qualquer problema. A dietoterapia, as aulas de nutrição e metabolismo, as práticas em técnica e dietética sempre abordaram a importância de cada alimento, a história de cada preparação, a maneira como eles podem ou não ser prejudiciais à sua saúde. Os alimentos, em sua forma única e natural, eram o fio guia de todas as nossas disciplinas, e foi na faculdade que aprendemos a apreciar e consumir cada um deles da maneira correta. No meu universo de estudante de nutrição (como também no de meus professores) não existia discussão sobre a prescrição de produtos “no lac”, “no gluten” ou “no sugar” como alternativas para tratar indivíduos saudáveis, nem mesmo para alimentar atletas. Veja bem, quando éramos estudantes estes produtos eram cogitados para ser prescritos para indivíduos com alguma intolerância ou doença que não os permitisse consumir estes alimentos em sua forma original – e mesmo assim, sempre fomos incentivados a procurar alternativas naturais a estas intolerâncias, evitando o máximo possível o consumo de alimentos industriais manipulados.

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Apesar de reconhecer a importância do avanço da indústria alimentícia neste caminho, oferecendo cada vez mais alternativas para quem tem limitações nutricionais específicas, eu não me canso de refazer algumas perguntas diariamente: Quando é que as escolas de nutrição começaram a formar nutricionistas que defendem com unhas e dentes a prática da alimentação restritiva? Quando é que nós, nutricionistas sérios e formados em boas faculdades, nos esquecemos o que é saber comer? Quando foi que nós começamos a obedecer a exigência dos nossos pacientes e ignoramos no mínimo quatro anos de aprendizado concreto sobre alimentação e suas influências? Quando é que deixamos que musas fit, revistas, jornais e programas de TV estabelecessem o que é saudável e o que não é na nossa alimentação?

Precisamos reencontrar o caminho do bom senso e fazer as pazes com os nossos hábitos alimentares. Comer de tudo faz bem, faz muito bem, desde que seja de maneira equilibrada. Michael Pollan, que ilustra o topo da página do nosso blog, diz em um de seus livros: “Coma comida, não em excesso”, mas eu lhe peço permissão para fazer uma pequena alteração em sua frase para concluir o meu raciocínio: “Coma comida e não complique.”

escritopor2marina

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10 respostas em “Coma comida!

  1. Parabéns Marina,
    Também sou nutricionista e fico muito feliz em ler opiniões com as quais eu me identifico, como é o caso deste texto e vários outros do blog. Ainda mais em tempos em que os modismos tem tomado conta de condutas nutricionais…lamentável!

  2. Marina, sou nutricionista e super me identifico com sua postura… e parece que consegui um fio pra me segurar: “oba… não estou sozinha”. Parabéns pelo texto, estava lendo e toda hora dizendo: “isso, justamente, é isso mesmo”… rs. Me entristece a postura de alguns profissionais que se deixam levar pelo “modismo”… isso me incomoda demais pois somos formados para exercer a CIÊNCIA da nutrição e não para praticar o que tiver na moda. Somos formadores de opinião e educadores… e muitos estão esquecendo disso ou não estão se preocupando com o mal que podem estar causando. Parabéns, novamente!!! 😉

    • Pois é Lucy! Eu fico me perguntando também o que é que estes profissionais vão fazer se um dia o modismo acabar (porque eu acho que tudo tem um prazo de validade)! Pelo menos nós estamos mantendo nossa integridade profissional, não é mesmo? Um beijo!

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