E o glúten, pode?

Sempre me pego perguntando de onde será que vem estas teorias para novas dietas milagrosas. Me pergunto mas quase sempre sei que a resposta vem de algum estudo científico mal lido ou alguma resposta orgânica mal explorada. Toda vez algum pobre alimento é sacrificado nesta brincadeira; já foi o tomate, a carne, o leite e agora o glúten. Mas calma, calma xiitas da alimentação gluten-free, antes de começarmos as polêmicas vamos começar discutindo de onde veio todo esse temor aos alimentos com glúten.
Trigo: vilão ou herói da saúde humana?
Já discutimos aqui mesmo no blog sobre a Doença Celíaca (aliás temos um marcador ali no canto da tela só sobre a doença e sugestões sem glúten, mas pode clicar aqui também se quiser achar) onde expliquei um pouquinho sobre a sintomatologia da doença após a ingestão deste composto proteico. Mas quero ir um pouco mais a fundo, porque é que estes pacientes são “intolerantes” ou “alérgicos” ao glúten? O paciente com DC (vamos chamar a doença assim, para ficar menos cansativo) apresenta uma alteração genética, ainda não totalmente explicada pela ciência, em alelos específicos que, aparentemente, dificultam a degradação desta proteína, que é o glúten, no seu sistema digestório. Esta alteração genética existe desde o nascimento deste indivíduo, não sendo causada por hábitos alimentares, viroses, bactérias ou qualquer outra interferência externa (pelo menos não foi constatado nada sobre isto ainda). Ou seja, estes indivíduos com esta alteração genética específica são SIM alérgicos (ou intolerantes) ao glúten. Não há nada que cure esta intolerância. A ingestão do glúten nestes pacientes causa todos aqueles sintomas que já citamos no outro post como diarreia, má absorção de nutrientes, cólicas e várias outras manifestações gastrointestinais semelhantes a outras doenças que atingem a região do intestino. Como evitar isto? Realizando uma dieta gluten-free, ou seja, retirando o glúten da sua dieta.
Agora, se lhe resta alguma dúvida sobre o quadro clínico da DC peço que você, caro leitor, releia o parágrafo acima antes de continuar este texto. Vou discutir pequenas questões em tópicos para chegarmos a alguma conclusão juntos.
Vamos ao meu primeiro questionamento: é possível uma pessoa sem alterações genéticas que causariam a DC ter alergia ao glúten? Bom, nunca podemos afirmar 100% que não, mas é pouco provável que esta pessoa tenha. Sabe-se que alguns pacientes podem apresentar leve desconforto ao ingerir alimentos fonte de glúten (como gases ou cólicas intestinais), mas isto se deve muito ao fato de carboidratos (em especial cereais como o trigo e a cevada) sofrerem um leve processo de fermentação no nosso intestino. Isto é perfeitamente normal, mas se o desconforto chega a ser um pouco desagradável a retirada de alimentos com glúten da dieta pode melhorar os sintomas deste indivíduo específico. Mas ele não terá consequências graves como os pacientes com DC como a má absorção de nutrientes, ou diarreias frequentes e perda de peso. Isto porque ele não é um alérgico, ele é simplesmente um intolerante leve, ou um “fermentador” como eu gosto de chamar.
Se você não tem DC esta foto não é assustadora!
Questionamento número dois: Se eu não tenho alterações genéticas mas ainda acho que o glúten faz mal eu posso excluir estes carboidratos da minha dieta? Poder você pode tudo meu caro leitor, mas eu peço que escute a opinião de uma nutricionista não radical, que sou eu, sobre o glúten. Eu não sei se vocês sabem mas a introdução do trigo (e seus coleguinhas cevada e centeio) foi uma grande conquista da humanidade. Desde os primórdios da vida humana na terra os cereais eram alimentos somente direcionados aos animais, deixando os homens com tubérculos ou raízes de fácil preparo. O que acontecia é que quando a seca chegava o homem sofria com a escassez de alimentos. A descoberta do preparo de alimentos com trigo (como o pão e as massas) permitiu que a espécie humana armazenasse estes alimentos por longos períodos de seca, e a transformação destes cereais em alimentos perecíveis é possível graças a mesma proteína que causa medo na nossa sociedade atual: o glúten. Esta proteína permite a elasticidade das massas produzidas com trigo, cevada ou centeio, e por isto é tão fácil manusear e armazenar as mesmas. A nossa sociedade é tão dependente do trigo hoje que é difícil excluir este composto da dieta, sem contar que ele é, acredite ou não, excelente fonte de vitaminas e minerais. Então, querido leitor, eu te devolvo a pergunta, porque você excluiria estes carboidratos da dieta se você não tem doença celíaca?
O glúten e sua elasticidade salvadora da humanidade
Questionamento número três: Se eu excluir o glúten da minha dieta eu vou emagrecer? Provavelmente sim e vou te explicar porquê. O motivo da sua perda de peso não é, nunca foi e nunca será a presença do glúten no alimento, e que isso fique bem claro ok? O glúten é uma proteína que compõe vários alimentos consumidos pela nossa população. Porquê você emagrece então? A nossa alimentação (quando digo nossa quero dizer do brasileiro) e extremamente dependente de alimentos fonte de glúten (vide o pão, macarrão, biscoito, bolo, cerveja). Se você parar pra pensar, pelo menos uma vez por dia você se alimenta de algo que tem glúten, e geralmente você gosta deste alimento. O que acontece quando você exclui este alimento? A sua tendência é reduzir a quantidade de calorias que você come por dia, afinal você está excluindo algo que faz parte da sua alimentação diária, e por causa desta redução calórica a longo prazo (considerando que você vai excluir o glúten por vários meses da sua dieta) você perde peso. Simples assim. Funcionaria da mesma maneira se você fosse um fanático por carnes e excluísse todas elas da sua alimentação.
O motivo do meu texto não é desmoralizar ou criticar (ok, talvez um pouquinho) os adeptos da nova onda de dieta gluten-free. O meu objetivo é, diferente de muitos nutricionistas por ai, defender o coitadinho dos ataques frequentes sobre suas características. O que quero dizer é que o trigo, a cevada e o centeio são fontes calóricas, de vitaminas e minerais muito importantes para a população brasileira, e digo isto porque vejo a dificuldade que é atingir as necessidades nutricionais de pacientes que não podem ingerir o glúten. Além disto a exclusão do glúten se torna quase uma exclusão social, visto que somos extremamente dependente destes alimentos para nos alimentarmos, e esta situação é talvez a mais difícil de ser contornada em um paciente com DC. Há estudos que mostram relatos de depressão e exclusão social destes pacientes simplesmente pelo fato de não conseguirem comer um pão. Por isto volto aqui a defender o glúten, se você pode comer, porque passar por todo este sacrifício que a doença celíaca faz com quem muitos indivíduos passem? Eu tenho certeza que, se pudesse, o celíaco nunca daria as costas a um prato de macarrão. E eu se fosse você também não daria. Pode ser que a ciência um dia prove que eu estou totalmente errada e que o glúten é realmente um vilão para todos nós, e vocês lerão este post neste dia e vão me chover de críticas no blog, mas eu espero, de verdade, que este dia nunca chegue. Eu gosto demais do trigo para deixar que ele seja jogado as traças assim.
Obs: Nenhum alimento com ou sem glúten foi ferido durante a elaboração deste texto.
Obs2: Quer outra opinião sobre o assunto? Leia aqui:
escritopor2marina
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23 respostas em “E o glúten, pode?

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  6. Meu Deus… Marina, tô com delay, mas você falou tudo… A gente mostra o que sabe, o que entende, o que estuda, o que tem embasamento…Graças a Deus temos profissionais que vão atrás de informações dignas, e não de livros best seller da saraiva! 🙂 É isso aí! Beijos

  7. Meu Deus!!!! Se a Marina fez mestrado justamente em doenças celíacas e ainda defende o glúten, é pra acabar!!! Realmente nem tenho mais o que discutir, apenas concluir que não só as instituições de ensino, ensinam errado, como os profissionais de saúde deveriam se atualizar mais e estar sempre aberto a novas pesquisas e estudos… Nesses 30 anos de profissão, Mauro vc deveria pensar nisso! O meu marido tb não aprendeu muita coisa na faculdade dele de medicina, mas esta sempre estudando e se atualizando, viu sentido em muitos estudos e ainda bem que tem não só ele, mas como alguns outros dispostos a passar dietas mais saudáveis para os seus pacientes!!! Finalizo aqui os meus questionamentos, e claro que a decepção com esse blog pra mim é imensa!

  8. Aqui fala Mauro, o médico do grupo. Aqui nós respeitamos as opiniões de nossos leitores, mesmo aqueles que usam este espaço para atacar os que, com embasamento científico – todos os redatores deste blog são profissionais experientes e respeitados em sua área, com diversas publicações, cursos, aulas,e pós graduação. No caso da Marina a área de estudo e mestrado dela é exatamente com Doença Celíaca, na UFMG. Nós tentamos aqui discutir assuntos da moda, como as dietas com ou sem aquele nutriente. Eu digo o seguinte: uma dieta restritiva, em um mais nutrientes, só se justifica para mamíferos onívoros oportunistas, como o homo sapiens, se houver alguma condição patológica que impeça a ingestão ou absorção do referido nutriente. assim elas são essenciais para os celíacos (restrição de glúten), fenilcetonúricos (fenilalanina) , etc. Mesmo condições tidas anteriormente como altamente responsivas a tais dietas, hoje são motivo de discussão (como uso de carbohidratos em diabetes ou de proteínas para cirróticos). Assim sendo, afirmo do alto de meus 33 anos de formado, dos quais 30 trabalhando com nutrição – as dietas restritivas em nutrientes exclusivos não têm indicação para o manejo de pacientes sadios. Isto não impede que nossos leitores sejam contra esta opinião, mas por favor respeitem a nossa opinião, como respeitamos e estamos publicando as suas, embora não concordemos com elas.

  9. Interessante, se não devo seguir o CFN quem será que eu devo seguir? De qualquer maneira queridos o que vale aqui é a opinião de cada um. Meus pacientes comem glúten, são saudáveis e felizes, vocês não tem obrigação nenhuma em comer e nem em consultar comigo e, menos ainda, de visitar esse blog. Se vocês estão tão confortáveis com as decisões de vocês porque vir perder seu tempo em nos chamar de ignorantes e antiprofissionais? A coisa mais fácil que tem é fechar o navegador da internet.Obrigada novamente por visitarem a acalorarem esta improvável discussão sobre conduta em saúde. Passar bem! Beijos!

  10. Claro que não né marina? A indústria alimentícia depende do glúten! Infelizmente saúde e alimentação virou política e ninguém esta nem ai se o glúten faz mal mesmo que a pessoa não seja celíaca!!! Eu li sobre vcs e pouco me importa o conteúdo de lá, me importa o conteúdo que vcs escrevem, orientando erroneamente pacientes e pessoas que por aqui passam, falando de benefícios do glúten, ou que ele não é um vilão!!!! Pelo amor de Deus!!!!! Vcs são profissionais da saúde, não é possível que não consigam enxergar… Mas enfim! O que posso fazer… Apenas rezar para que seus pacientes não morram com as dietas que vcs prescrevem!!!!!

  11. Caroline, acho que você também precisa dar uma lidinha. Vai na aba "Quem Somos Nós?" pra ver se a gente fala alguma coisa sem embasamento por aqui. É só questão de opinião e conduta, e graças a Deus as nossas são bem diferentes.Volte sempre!

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