Atos extremos de lutadores amadores do MMA são perigosos para a saúde

Reproduzimos reportagem do Estado de Minas, em que uma de nossas colaboradoras (Gabriela Prando) dá sua opinião.

Desidratação em sauna ou banheira de água quente, entre outros hábitos radicais, podem prejudicar órgãos como coração e rins

Original : Carolina Cotta – Estado de Minas Publicação:28/04/2013 
 

São vários os clubes de luta e academias especializadas no treinamento de amadores, gente que está trocando a musculação por algo mais radical (Arte: EM/DA Press)

São vários os clubes de luta e academias especializadas no treinamento de amadores, gente que está trocando a musculação por algo mais radical

Anderson Silva, Vítor Belfort, Minotauro e José Aldo Júnior arrastaram uma leva de jovens às academias. Os fãs do Ultimate Fighting Championship (UFC) não querem apenas ver seus ídolos no octógno. Querem também provar o gostinho do MMA, sigla em inglês para mixed martial arts. A luta, que como sugere o nome mistura uma série de artes marciais, nunca esteve tão popular na televisão e fora dela. São vários os clubes de luta e academias especializadas no treinamento de amadores, gente que está trocando a musculação por algo mais radical.

A vitória, entretanto, vem acompanhada de uma série de excessos. Água destilada é das descobertas mais recentes e veio emprestada da turma do fisiculturismo, que prioriza a água sem sais minerais em busca de uma desidratação e consequente valorização da estrutura muscular. Mas a água destilada é o de menos para quem recorre também a laxantes, diuréticos, roupas especiais para aumentar a temperatura corporal e sauna. Um dos métodos é ainda mais ousado: um banho de banheira de água quente com sal para desidratar ao máximo.

Tamanho esforço tem um único objetivo: baixar o peso antes da pesagem anterior às lutas. Para atingirem o peso da categoria em que pretendem lutar, os praticantes esquecem a dieta equilibrada que adotam durante o treinamento. Na reta final, vale tudo para ganhar. O comerciante e lutador amador Alexandre Magno, de 31 anos, já experimentou alguns dos métodos. Apaixonado por luta desde os 5 anos, quando começou no tae kwon do, o lutador de jiu-jítsu já se dedicou também ao MMA, boxe, muay thai e kickboxing. “Mas não faço a banheira porque os caras saem direto para o hospital para tomar soro.”


Ninja, como é chamado, já viu um colega ter o rim paralisado depois de insistir na desidratação em uma dessas banheiras com água quente e perder muitos sais minerais. “O MMA amador está sendo realizado de forma muito banal. O pessoal está tentando fazer a reidratação em casa, sem medicamento. Tem lutador que não se recupera. Às vezes, eles saem tão fracos da pesagem, depois de adotarem todos esses métodos de desidratação, que nem conseguem lutar no dia seguinte”, revela o lutador, que já usou diurético, laxante e até roupa de motoqueiro para se exercitar e suar bastante.

ALIMENTAÇÃO BOMBADA
A nutricionista Gabriela Prando faz acompanhamento de lutadores amadores em um clube de luta em Belo Horizonte e, segundo ela, cada vez chegam mais jovens interessados na modalidade MMA. Para iniciar a prática e estar apto a entrar num campeonato, o interessado, além de precisar fazer uma série de exames preventivos, e ser acompanhado por um médico precisa despender uma média de quatro horas de treino diários. Os lutadores, no período normal de treinos, seguem uma dieta hipercalórica, de 5 mil a 6 mil calorias, com 65% de carboidrato, 20% de proteína e o restante de gordura insaturada, encontrada em castanhas, açaí e outros alimentos ricos em antioxidantes. Para comparar, a dieta de pessoas comuns é de cerca de 2 mil calorias diárias.

O problema é que os lutadores tendem a comer uma quantidade exorbitante de proteína, muito além do que é prescrito. “Nosso organismo não processa toda a proteína ingerida e o que vai além é excretado pela urina. Então, não adianta consumir além, mas eles acreditam numa lenda de que quando mais proteína ingerirem mais massa muscular terão e comem quatro vezes mais do que precisam”, explica a nutricionista Gabriela Prando, que se preocupa com a sobrecarga dos rins. Outro mito é em relação à água destilada, sem sais minerais. “Eles já estão no extremo e para perder três gramas apelam para tudo, um risco à saúde”, observa.

'O MMA amador está sendo realizado de forma muito banal...Às vezes, eles saem tão fracos da pesagem, depois de adotarem todos esses métodos de desidratação, que nem conseguem lutar no dia seguinte' AlexandreMagno, lutador de jiu-jítsu (Leandro Couri/EM/D.A Press)

“O MMA amador está sendo realizado de forma muito banal…Às vezes, eles saem tão fracos da pesagem, depois de adotarem todos esses métodos de desidratação, que nem conseguem lutar no dia seguinte” AlexandreMagno, lutador de jiu-jítsu

Todo o exagero está pautado na urgência de chegar ao peso da categoria abaixo daquela na qual a pessoa se enquadra. Ninja, por exemplo, pesa em torno de 80 quilos, mas luta na categoria que vai de 72 quilos a 76 quilos, com o quimono. “Preciso perder seis quilos para lutar. Aí fico o mais forte dessa categoria abaixo do meu peso normal. Isso é muito comum no meio. O lutador briga com a balança todo dia. Tudo para ganhar”, revela o lutador, que tem acompanhamento de cardiologista, nutricionista e até um treinador para o aspecto psicológico e come até 20 ovos por dia. “Não sei perder”, diz. Nenhum dos profissionais aprova as atitudes extremas, mas para ganhar, ele se arrisca.

“Fazemos o acompanhamento com os atletas durante o treino. Quando chega a véspera da luta eles esquecem de tudo. A gente não recomenda essa dieta de desidratação, mas depois da luta eles voltam como se nada tivesse acontecido. Vi um atleta perder sete quilos em uma semana. Ele fez jejum de tudo. É comum trocarem água por gelo e na pesagem ficam tão fracos que não conseguem ficar de pé. É muito contraditório porque para o organismo não há benefício algum. Eles lutam tanto para conseguir massa magra e a perdem toda nessa semana de jejum prolongado. É uma loucura”, observa Gabriela.

A maioria dos lutadores sabe que está fazendo algo ousado, tanto que muitos não falam sobre o assunto. Mas para Ninja, falta conhecimento dos riscos para a maioria deles, às vezes pressionados pelos treinadores. “Convivo há muitos anos com o pessoal do fisioculturismo, que sempre praticou essas técnicas de desidratação. Mas quando fui fazer, vi que o buraco era mais embaixo. Meu cardiologista fala que é arriscado. Posso ter complicações. Mas todo mundo gosta de ganhar. Sou a favor de ganhar e, por isso, menosprezo os riscos”, conta o lutador.

DIETA MMA
Idealizada pelo nutricionista esportivo americano Mike Dolce, a Dolce Diet tornou-se a dieta dos lutadores ao ajudar aqueles com problemas de peso a atingirem o índice da categoria em que disputam. Baseada na restrição quase total de carboidratos e no processo de desidratação do atleta, pode levar à perda de até 10 quilos em uma semana. Mas especialistas alertam para riscos não só para pessoas normais, mas também para os atletas.

Palavra de especialista: Impacto negativo
MÁRCIO LAURIA – ENDOCRINOLOGISTA E PROFESSOR DA FACULDADE DE MEDICINA DA UFMG

“Variações bruscas de peso em poucos dias se devem basicamente à perda ou ganho de água. Em geral, 60% do nosso peso corporal se deve à água. Obviamente, a perda brusca de peso pode desencadear um quadro de desidratação, com todas as suas consequências negativas para o metabolismo e para o funcionamento de órgãos como os rins e o coração. Todos esses processos utilizados atuam na mobilização do líquido corporal e provocam desidratação intra e extracelular. Processo semelhante é visto nas clínicas de emagrecimento rápido e milagroso. A recuperação do peso se deve à hiperhidratação com soluções que muitas vezes podem também trazer prejuízos para um organismo que estava tentando se adaptar àquela desidratação que lhe tinha sido imposta, sobretudo em pacientes com alguma doença de base não identificada, como um mal renal ou cardíaco. Se para o atleta profissional, que de uma certa maneira é teoricamente saudável e está sendo monitorado por alguém, isso traz riscos, que dirá para um atleta amador ou para um indivíduo comum, que não tem nenhum tipo de acompanhamento e provavelmente não terá nenhum benefício com isso.”

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