Crônica: Transgênicos – Você é contra ou a favor ?

transgênicos

A pergunta me foi feita pelo quase primo André Jack, e eu como bom curioso resolvi pensar no assunto. Aliás, não é a primeira vez – há mais ou menos dez anos atrás estive no CRM de MG, para tentar chegar a uma conclusão médica sobre o assunto. Não chegamos a nenhuma digna de nota na época. Hoje, já mais maduro e reflexivo, me permito a discorrer um pouco sobre o assunto. Há defesas apaixonadas de ambas as posições. Mas, como todas as defesas apaixonadas elas tendem a ser tendenciosas e pouco confiáveis.

Acho que podemos tentar pensar no assunto sobre alguns ponto de vista separados para tentar chegar a uma conclusão final.

O aspecto econômico e da produtividade

Do ponto vista comercial e produtivo, não há dúvidas que temos que ser extremamente favoráveis ao uso de transgênicos. Aliás, do ponto de vista biológico, transgênicos não chegam a ser uma novidade absoluta na agricultura. Não seriam os enxertos, praticados há centenas de anos por agricultores de todo o mundo, transgênicos ? O que difere é a técnica , a velocidade de propogação destes transgênicos, e o volume com que são produzidos. Quem seria , em sã consciência, contra uma alface , como a produzida pela Embrapa, que tem 15 vezes mais ácido fólico que o normal, e que poderia ser empregada na alimentação , por exemplo, de gestantes no primeiro trimestre da gravidez, com um custo bem mais baixo que  a medicação habitual? Ou contra uma batata com 33% a mais de proteínas , ou um tomate rico em vitamina A, ou a soja rica em ômega 3, com alta capacidade para ser incluída no tratamento e prevenção, por exemplo de coronariopatias, ou de doenças inflamatórias, como a artrite reumatóide ou as doenças inflamatórias intestinais? É o ápice do uso do conceito do alimento nutracêutico (um nutriente com efeitos farmacológicos – a aplicação dos nossos conhecimentos adquiridos no estudo da nutrição, para  prevenir ou tratar doenças crônicas.

O aspecto ético e comercial
selo que identifica produtos com transgênicos
A introdução dos transgênicos no Brasil foi um tanto confusa. Em 1998, a multinacional Monsanto entrou com um pedido de licença para o plantio comercial de soja transgênica no Brasil. A CTNBio autorizou a produção, mas uma liminar conseguida pelo IDEC (Instituto de Defesa do Consumidor) e pelo Greenpeace anulou a decisão, alegando a incompetência da CTNBio, para deliberar sobre o assunto. Nos anos que se seguiram a este debate, a soja transgênica continuou a se contrabandeada da Argentina e vendida como soja normal. Em 2005, o cultivo e o consumo dos transgênicos foi liberado no Brasil. Os ambientalistas então lutaram para que os transgênicos passassam a ser identificados no rótulo das embalagens.  Foi então que o triângulo com a letra T passou a ser obrigatório nas embalagens de transgênicos comercializados no Brasil. Os defensores – como as empresas Monsanto, Dupont, Syngenta, Groupe Limagrain, Land OLakes, KWS AG, Bayer Crop, Takii, Sakata e DLF-Trifolium e Embrapa  – afirmam que estes alimentos são mais produtivos e resistentes, reduzem o uso de pesticidas e podem acabar com o problema da fome no mundo. Assim, segundo eles se utilizariam de menos recursos naturais, e melhorariam a vida dos agricultores. Já a vertente contrária frisa primeiramente as questões éticas, questionando até onde vai o direito humano de alterar a natureza; e aponta que, desde Malthus, sabe-se que o problema da fome não é em razão da falta de alimentos, mas sim à má distribuição destes – o que contraria o argumento dado por aqueles que defendem os transgênicos. Vamos raciocinar : é vantagem usar menos pesticidas ? Parece que sim. O desenvolvimento de transgênicos é a única maneira de se utilizar de menos pesticidas ? Há maneiras mais trabalhosas e que interferem menos no meio ambiente, como a utilização de produtos orgânicos. E a produtividade ? É claro que ela aumenta com a resistência às pragas, mas também aumenta com o uso adequado da agricultura orgânica. E o que dizer dos interesses comerciais ? A quem interessa mais uma semente altamente resistente às pragas, mas que toda vez tem que ser comprada a preços de mercado, diretamente na mão dos grandes produtores de transgênicos? Ás empresas ou aos agricultores ? Não estou defendendo o fim dos transgênicos, só pedindo neste tópico, que se leve em considerações éticas, regionais e morais. Como bem diz o Slow Food. Qual será o futuro dos agricultores tradicionais, das famílias que hoje vivem da agricultura de subsistência? Pior o que será da diversidade biológica – centenas de variedades vegetais, ricas ou deficientes em determinados nutrientes, aniquiladas pela força comercial de uns poucos produtores. Pensem nisto. Vale a pena ?
O impacto no meio ambiente
terra

Neste item preferí transcrever a própria opinião da Embrapa : “A avaliação e o estabelecimento de métodos para o estudo de organismos geneticamente modificados (OGM) são de grande importância, uma vez que as ações voltadas à segurança ambiental devem procurar promover a preservação da biodiversidade, a manutenção dos ecossistemas e os respectivos padrões de sustentabilidade requeridos.Alguns dos possíveis efeitos adversos produzidos por um OGM são os danos diretos e indiretos sobre organismos benéficos, não-alvos da comunidade local, de importância econômica, ecológica e/ou social. Até a saúde humana pode ser diretamente afetada, mediante a ingestão de alimentos, alteração de infectividade e patogenicidade de microorganismos engenheirados, ou indiretamente, por alterações ambientais e da cadeia alimentar, através de um desbalanço nas populações de um determinado ecossistema.Existe a possibilidade da transferência não intencional de informações genéticas entre organismos. Os microorganismos, originalmente não patogênicos, poderiam se tornar patogênicos, ou ter sua amplitude de hospedeiros aumentada. Espécies diferentes de plantas, que tenham compatibilidade de cruzamento, poderiam gerar uma nova planta daninha. No caso das plantas resistentes a um herbicida, elas poderiam ainda se tornar pragas por resistência, quando este é utilizado repetidamente. Nas cultivares que expressam toxina do Baccilus thurigiensis, os insetos rapidamente criariam resiência, e a toxina gerada poderia ser incorporada ao meio ambiente, afetando o solo e o ecossistema aquático, uma vez que a atividade inseticida da toxina pode persistir por 40 dias ou mais.

Apesar da importância do estudo do impacto dos OGM sobre os organismos não-alvos, não se pode predizer, com exatidão, o comportamento desses organismos no campo, devido à complexidade de suas relações com o ambiente, enquanto as pressões seletivas do ambiente, muitas vezes, só podem ser determinadas em áreas de produção em larga escala. Portanto, o risco potencial à saúde pública e ambiental, a partir de uma liberação de OGM, seja intencional ou acidental, é objeto de múltiplas avaliações. Devem ser respondidas questões quanto à sobrevivência, disseminação, colonização e função da liberação desses organismos em habitats naturais, e também quanto aos aspectos socioeconômicos e problemas advindos da ausência de barreiras políticas ou fronteiras que restrinjam a disseminação do organismo.Quanto à harmonização de protocolos experimentais que quantifiquem o risco ambiental, ao menos na Comunidade Européia não há concordância quanto à melhor forma de como medi-lo. Contudo, eles propõem que a CE adote o princípio da avaliação em diferentes fases, as quais ainda não estão bem estabelecidas. A avaliação de cada planta deve ser estabelecida caso a caso, monitorando as preocupações quanto à biossegurança ambiental específica, sendo que o propósito e a função do novo gene incorporado deve ser levado em consideração no desenho do novo estudo.
Na avaliação de risco ambiental de novas práticas agrícolas, é igualmente preciso levar em consideração a saúde ambiental, uma vez que o ecossistema tem valor intrínseco, e cada um de nós é responsável por manter sua sustentabilidade. Assim, a melhor compreensão da interação entre organismos transgênicos e ecossistemas torna-se necessária, por parte da população e dos órgãos regulamentadores, para assegurar decisões que tenham eco na comunidade, no que tange ao ambiente.”

(*) Vera Lúcia Scherholz Salgado de Castro é Pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente. E-mail: castro@cnpma.embrapa.brO impacto no meio ambiente
O impacto na nossa microflora intestinal
Falemos agora de outro tema pouco estudado, em termos de OGM: o nosso próprio ecossistema interno. “O número de células bacterianas do corpo humano ultrapassa o número de células humanas numa proporção de 10 para 1. Algumas destas bactérias contêm genes que codificam compostos benéficos que o corpo humano não consegue produzir sozinho. Outras bactérias parecem instruir o corpo a não reagir contra ameaças externas. Avanços computacionais e sequenciamento de genes estão permitindo criar um catálogo detalhado de todos os genes bacterianos que formam esta microflora. Infelizmente a destruição inadvertida de microrganismos benéficos devido ao uso de antibióticos, emtre outras coisas, pode estar levando a um aumento na presença de doenças autoimunes e até da obesidade” . O trecho anterior é extraído da Scientific American Brasil (Ed 49, novembro 2012). Alterações em populações anteriormente tidas como patogênicas como o H.pylori, o Bacteroides fragilis,  e outras estão hoje já diretamente relacionados com o crescimento na incidência de doenças crônicas como as doenças inflamatórias iintestinais e até mesmo a obesidade. E ai fica a pergunta : qual o impacto de alimentos modificados em nossa microflora ? Estaremos consertando algumas coisas e atrapalhando outras? Ainda não há respostas. Como também não há respostas convincentes para a questão se as modificações de estruturas alimentares poderiam levar ao aumento do aparecimento de alergias, intolerâncias ou eventualmente até tumores.
Resumindo – com base no conhecimento atual – eu sempre que posso evito ingerir transgênicos , embora isto hoje seja quase impossível.

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