O Fim da Nutrologia ?

Outro dia eu me lembrei de um livro, bastante provocativo, intitulado O fim da Ciência do ex-editor da revista americana Scientific American, John Horgan, publicado em 2008. Neste livro, o autor provoca os leitores com a seguinte questão: teria a ciência, ou o conhecimento humano, atingido o seu limite? Ainda há o que se descobrir? No livro, Horgan pondera de que nos últimos trinta anos não houve nenhuma nova descoberta em ciência básica. Ou seja, todo o avanço tecnológico das últimas décadas teria acontecido “apenas” como resultado da aplicação de conhecimento já adquirido, ou seja ciência aplicada. Provocação ou não, faça um esforço – tente se recordar de algum conhecimento novo, revolucionário , que tenha ocorrido nos últimos trinta anos. Física quântica, energia nuclear, eólica, estrutura do DNA, vitaminas ? Todos já são nossos antigos conhecidos.

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Dentro do mesmo raciocínio, encaixo outro livro que estou relendo; este bem menos conhecido que o anterior. Trata-se de Alimentação,Instinto e Cultura obra em dois volumes, datada de 1956 e escrita pelo médico mineiro Antônio da Silva Mello. Mello, nascido em Juiz de Fora em 1886 e falecido no Rio de Janeiro em 1973, foi além de excelente médico, um brilhante ensaista. Ele teve sua formação dividida entre a Faculdade de Medicina do Rio e a de Berlim, onde formou-se em 1914, tendo se especializado em Clínica Médica. Trabalhou na Suiça e depois retornou ao Brasil, mais especificamente para Belo Horizonte e depois  ao Rio.Em 1944, fundou a Revista Brasileira de Medicina, da qual foi diretor científico até 1973.Pesquisou e escreveu também sobre nutrição, metabolismo, imunidade e epidemiologia, nefrologia e gastrenterologia, alimentação, psicologia e psicanálise. Seus trabalhos sobre os efeitos biológicos da radioatividade tiveram repercussão no mundo científico internacional. Foi também eleito para a Academia Brasileira de Letras, onde foi o quarto ocupante da Cadeira 19, eleito em 12 de abril de 1960, na sucessão de Gustavo Barroso e recebido pelo Acadêmico Múcio Leão em 16 de agosto de 1960.Entre suas obras principais podemos citar : Problemas do ensino médico e da educação (1936); Alimentação, instinto e cultura. Perspectivas para uma vida mais feliz (1943); O homem: sua vida, sua educação, sua felicidade (1945); Alimentação no Brasil (1946); Mistério e realidades deste e do outro mundo (1948); Alimentação humana e realidade brasileira (1950); Nordeste brasileiro. Estudos e impressões (1953); Estudos sobre o negro (1958); Panorama da América Latina (1958); Panorama dos Estados Unidos (1958); Estados Unidos Prós e Contras (1958); Israel Prós e contras (1962); Religião Prós e contras (1963); O que devemos comer (1964); Assim nasce o homem (1967); A superioridade do homem tropical (1967); Ilusões da psicanálise (1968). Ou seja, um legítimo clínico,exímio pensador e como diria meu mestre Faustino Teixeira : ” Um especialista em ideias gerais”, como todo bom clínico.
No nosso livro em questão, Alimentação,Instinto e Cultura, Silva Mello discute temas como o instinto animal, as deturpações do apetite, o instinto e a razão, as falhas do instinto, o papel do subconsciente nas nossas escolhas alimentares, o uso do alcool, o vegetarismo, os malefícios atribuídos à carne, os conceitos de alimentos frios e quentes, o uso do leite na alimentação humana, o papel do jejum nos tratamentos dietéticos, o problema da longevidae, e muitos outros. Todos estes temas são apresentados acompanhados de farta inserção histórica, documental e brilhantes considerações humanísticas. Em suma, uma obra prima, infelizmente esquecida pelas nossas editoras.
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Gostaria então de transferir a provocação de John Horgan para o campo da ciência nutricional. Terá a Nutrologia chegado ao seu fim ? A Nutrologia é a mais antiga , e ao mesmo tempo a mais moderna forma de terapia utilizada pelos médicos. A mais antiga porque foi a primeira observação dos curandeiros e físicos antigos – havia correlação direta entre a alimentação e a saúde. Assim hábitos “saudáveis” foram incorporados e encorajados , na maioria das vezes com a preciosa ajuda da religião , aos hábitos humanos. Ao mesmo tempo a nutrologia ressurge como uma moderna forma de terapia, sobretudo porque é natural, barata e principalmente ecologicamente correta. mas assim como fez Horgan em seu livro eu refaço a questão : qual foi o último grande avanço (que não seja de ciência aplicada) no campo da nutrologia ? Talvez a descoberta das estruturas protéicas ou a das vitaminas, embora o efeito da sua carência já fosse conhecido há anos. A nutrição artificial (enteral ou parenteral), não passa de ciência aplicada; o papel do selênio em pacientes graves ? Qualquer criador de carneiro já conhecia os efeitos devastadores da falta de selênio em seus pastos. A resistência inulínica, a infertilidade, as doenças associadas à obesidade ? Basta reler os tratados de nutrição animal, e lembrar-nos que somos parte deles. Qualquer fazendeiro sabe, por exemplo, há mais de 200 anos, que as vacas devem ser mantidas em estado de eutrofia para que sejam saudáveis e férteis. E estes são apenas alguns exemplos.


Não. Não estou querendo acabar com o conhecimento acumulado pela nutrologia nas últimas centenas de anos. Estou apenas querendo por alguma ordem na casa. Não aguento mais comprar uma revista e “descobrir” que o alho passou a fazer bem para a saúde, ou que o consumo de tomates ajuda prevenir o câncer. O conhecimento alimentar, como bem dizia Silva Mello é instintivo, deve estar de alguma maneira embutido em nosso genoma. Devemos sim continuar a trabalhar e a difundir os conhecimentos alimentares, como faziam os nossos antepassados, via hábitos familiares ou religião, hoje usando técnicas mais modernas e talvez tão efetivas. Devemos estar atentos sim ao nosso onipresente subconsciente , que teima em perverter os nossos instintos. Mas será que existe motivo para a existência da Nutrologia como especialidade ? Não será obrigação de todos os médicos, especialmente dos clínicos saber orientar seus pacientes quanto a uma função tão básica como a alimentação? Porque não se ensina Nutrologia nas escolas de medicina? Ignorância? Resistência? Reserva de Mercado ? Ou tudo isto junto ?

Eu amo dietistas cartão postal

 Minhas caras nutricionistas, não sou contra a atividade de vocês, sou sim muito a favor. Acho o nome da profissão pouco adequado, para a compreensão popular, aqui no Brasil. Prefiro o nome anericano: dietistas. Vocês são e serão essenciais no processo de ensino, divulgação e aplicação destas técnicas dietéticas. Vocês são parte essencial das equipes multiprofissionais, que hoje cuidam dos pacientes, nos diferentes níveis de atenção: primário, secundário ou terciário, mas reflitam comigo, não como profissão, mas como ciência, não terá a nutrologia chegado ao seu fim?

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